“Doona” é um dorama de 9 episódios da Netflix (dublado), que conta a história de um rapaz pacato e bonzinho que se torna vizinho de uma idol problemática que deixou seu grupo.
Adaptado do webtoon “The Girl Downstairs” de Min Song Ah. Sob a direção de Lee Jeong Hyo (Romance is a Bonus Book e Pousando no Amor) e roteirizado por Jang Yoo Ha, o drama (com carinha de comédia romântica, mas não é!) é um passeio na juventude e no período de amadurecimento. A trama gira em torno de Doo Na, uma ex-integrante do grupo de K-pop Dream Sweet, que deixou o grupo após um ataque de pânico no palco, e sua interação com personagens em um cenário de casa compartilhada. Audiovisualmente impecável, é uma série que dá gosto de prestar atenção em cada minuto muito bem gasto.
Elenco:
Bae Suzy (Enquanto Você Dormia, Dream High e o polêmico Apostando Alto), uma atriz e cantora renomada na Coreia, não poderia ser mais perfeita para o papel. Em primeiro lugar, antes de se estabelecer como atriz, Suzy foi membro do grupo de K-pop Miss A, no qual também enfrentou acusações de ser a “estrelinha” do grupo. Ela fez um movimento de ser modelo, atriz, solista… A atriz compreende a indústria de todos os ângulos, canta, dança, e é uma febre da Coreia do Sul desde seu debut, sendo chamada de “namorada da nação”. Assim sendo, tudo na personagem se torna bastante crível com sua atuação. Ela encarna realmente a principal. Ah, sim, para quem quer saber, esse estilo de cabelo que ficou super popular por causa dela chama-se “hime cut” (corte princesa, em tradução livre), popularizado no Japão.
Yang Se Jong (Temperature of Love, Dr. Romantic 2, 30, Mas 17 e Meu País) interpreta o protagonista, Lee Won Joon, um estudante universitário de engenharia. Pacato, bonzinho, até “trouxa”. O personagem é um “cuidador”. Preocupa-se excessivamente com os demais, aceita explicações demais e vive a vida de uma maneira socialmente desajeitada e até um tanto covarde, abandonando amores nas dificuldades, sem enfrentá-las, conversando pessoalmente e afins. Ele tem uma personalidade oposta à rebelde e livre Doona, que parece fazer o que bem entende, quando quer. O choque desses temperamentos traz crescimento para ambos.
Outros membros do elenco incluem Ha Young como Kim Jin Joo, Park Se Wan (Eu Não Sou Um Robô) como Choi Yi Ra, Kim Do Wan como Koo Jung Hoon e Kim Min Ho como Seo Yoon Taek, todos desempenhando papéis de suporte, em geral, cômicos (com exceção da Jin Joo). No entanto, diferentemente de uma maioria esmagadora de doramas que se propõe a ter vários núcleos, aqui não tem humor em excesso e cada personagem tem sua parte – inclusive a cena da personagem Yi Ra gritando palavrões no meio da rua para o seu namorado brasileiro viralizou e fez história.
Gostei especialmente do papel da Ha Young, pois foi um dos pouquíssimos doramas que realmente fiquei em dúvida e achei que o protagonista ficaria bem com qualquer uma das moças.
História:
A trama de “Doona!” é focada em torno de Lee Doo Na, que após deixar abruptamente o Dream Sweet, acaba morando na mesma casa compartilhada que Won Jun, um estudante de engenharia que inicialmente não reconhece sua fama. O drama explora a evolução de seu relacionamento, iniciado com mal-entendidos e curiosidade mútua – são opostos que se atraem por seu modo distinto de viver. Ao longo da série, os personagens passam por várias experiências, desde amizades na casa compartilhada até romances complicados.
Pode-ser dizer que Won Jun absorve a firmeza de Doona para se posicionar. Existe uma maturidade no comportamento dos personagens extremamente rara em séries: o triângulo é resolvido de maneira direta e gentil, as moças não precisam se digladiar por ninguém e até se tornam amigas, mas sem negar seus sentimentos e chateação. É uma aula de limites, autocuidado e respeito. Dá um quentinho no coração, ao mesmo tempo que há cenas que mostram a humanidade dos personagens e suas falhas. Doona é defensiva e extremamente egoísta, usando essa máscara para se proteger de seus próprios sentimentos. Afinal, é mais fácil rejeitar primeiro do que ser rejeitada – que é o maior medo da personagem.
Já Won Jun não se implica em seus desejos. É mais fácil fugir da situação do que admitir o quanto ela machuca e enfrentar aquela dor, novamente, a rejeição. Desse modo, ele parece direto e objetivo em suas conclusões, mas é só mais uma forma de não sofrer. No entanto, afastar-se de tudo que causa emoções fortes também lhe causa apatia, tristeza e vazio.
Os dois sofrem do mesmo mal em condições opostas: o medo da rejeição. Ela rejeita tudo; ele, aceita tudo. São duas formas pouco saudáveis de lidar com a dor de uma perda, mas ambos são bem parecidos nesse escapismo da realidade, cada qual a sua maneira.
Doona não é um dorama para qualquer pessoa, nem para qualquer momento. Em resumo: porque é triste. Não é uma série divertida e engraçada – ainda que tenham núcleos aqui e ali que estão lá para te distrair. Desde suas escolhas estéticas até musicais já é possível perceber que não é fofinho. É realista e vai deixar muita gente de coração quebrado, como no dorama 25, 21. É esse tipo de história que me deixa empolgada e me encanta, por isso eu adorei.
Analisando o comportamento:
A dinâmica entre os personagens principais de “Doona!”, especialmente no que diz respeito à autoestima e à percepção de merecimento é o ponto central da trama, que explica o final com perfeição.
No início, quando Doona está em um momento de vulnerabilidade, o personagem principal masculino (Won Jun) sente-se mais seguro em sua posição no relacionamento. De repente, aquela mulher tão magnífica e fora de sua alçada precisa dele. Essa fantasia o coloca em uma posição de apaixonamento e de cuidado. No entanto, essa posição também é uma maneira de reforçar o próprio ego: quando eu cuido de alguém “inferior”, eu me sinto necessário, mais capaz e, de certa maneira, mais poderoso. Mesmo que seja inconsciente e que o personagem não queira mal à idol, ela se tornou uma forma de se autoafirmar. “Porque ela precisa de mim, eu sou amado.” A partir do momento que sua ajuda não é mais necessária, sua autoestima também declina, bem como o suposto amor.
Enquanto isso, Doona sentia que não era digna de ser amada. Apresentava ao mundo sua pior versão, talvez na tentativa infantil de inconscientemente encontrar alguém que a amasse apesar de tudo isso. E assim, na sua pior versão, ela encontra um cuidador fiel e inabalável, um brinquedo que ela não consegue quebrar. No entanto, quando o quebra, percebe que foi longe demais e, com culpa, abre o coração e lhe devolve afeto. Won Jun faz um papel quase maternal na vida de Doona, algo que ela desesperadamente procura em suas relações. E ele a ajuda a se curar estando sempre lá, não importa o que aconteça.
Ela passa a enxergar a si mesma como merecedora de amor, mas é a partir daí que ela recupera sua fama e autoestima. A carreira é o novo “poder” da Doona, ela se torna suficiente por si mesma, por ser a idol. A dinâmica do relacionamento muda, pois nesse momento, ela fica maior do que Won Jun consegue cuidar. Se ele a aprisionasse, se ela desistisse do estrelato ou se ele mesmo desistisse da faculdade… Seria cortar as asas daquela menina que estava triste antes, mas agora quer voar. Ele cuidou dele e a ajudou a sair. A maior prova de amor que ele pode dar é não prendê-la. Pode ser parcialmente motivado a ego, ao machismo estrutural de não ser mais o “provedor”, mas gosto da atitude que ele toma de sair. Pois assim como a Doona recobrou autoestima, o personagem principal também aprende a “dizer não”. É a duras penas, mas ao ser “digno do amor de uma estrela”, ele também entende que não pode ficar em um relacionamento que o machuca e, mesmo a amando, aquilo seria tóxico para ambos. A história é quase antagonista à “Apesar de Tudo, Amor“.
O final é doloroso, mas adequado, pois, o amor, muitas vezes é deixar partir.
Conclusão:
Um baita drama, maduro, delicado, sincero. Não é para qualquer um. Se você espera uma trama tradicionalmente romântica, não assista. Se você curte um melodrama, um coração sofrendo e uma pitada boa de realismo, aí, sim, é para você.
Recomendo: Vinte Cinco, Vinte e Um, que engana muito mais que Doona em seu clima mais “leve”, mas a mensagem é bem parecida.
Para um romance entre uma estrela e uma pessoa comum (quer dizer, mais ou menos, porque ele é um alienígena), desta vez sim um romance, recomendo Meu Amor das Estrelas – mas faça o que fizer, não assista dublado na HBO.
Nota:
