Resenhas de Kdrama

[Resenha] Amor e Outros Dramas: a vida normal das pessoas de uma ilha e o amor que as une

Our Blues é um dorama de 16 episódios, dublado, na Netflix, que conta os dissabores e dia a dia dos moradores de uma Ilha de Jeju, passando individualmente por pequenos núcleos.

O roteiro

A escritora Noh Hee Kyung tem um talento especial em ter esse olhar para as sutilezas do dia a dia. Isso significa que não há nada acontecendo aqui que seja excepcional, explosivo ou tão melodramático que você não possa respirar. Por vezes, as histórias são inconclusivas, deixando no ar se aquele personagem conseguirá resolver seu dilema e, assim como na vida, por vezes só lá na frente você vai ficar sabendo de uma “fofoca” ou outra e nem sempre vai ter uma solução, um final feliz. Dito isso, não é uma história para todo mundo, porque é parada, lenta, longa como sua música suave de abertura. Poderia ser uma novela do Manoel Carlos versão subúrbio com um mpb na abertura.

Se você está a procura de um romance tórrido, um segredo de assassinato ou algo grandioso, pode esquecer. Caso esteja a procura de histórias que poderiam ser a de seus familiares, vizinhos ou a sua, com os dissabores naturais da vida, então vem comigo.

Os personagens e seus núcleos

É claro que esse formato de narrativa faz com que você tenha alguns favoritos, com quem vai se identificar mais, e outros que você não vê a hora de acabar, mas pode ser que algo te faça mudar de ideia. Não vou citar todos, pois cada morador dessa ilha tem sua importância, então vou falar de alguns.

@namchyoon

No meu caso, inicialmente eu detestei o núcleo das sereias (que pecado! Porque eu agora as adoro), com a personagem Yeong Ok (Han Ji Min, Familiar Wife, Hyde Jekyll, Me e Uma Noite de Primavera), mas quando a história dela se desenrolou, passei a ter mais carinho por ela. A personagem vive fugindo dos laços, como uma gata das ruas com medo de compromissos, já que os vínculos a fizeram sofrer muito. Gostei de ver uma personagem que não é um anjo salvador, mas que é “má”, isso a torna bastante humana.

Outro que não me agradava muito era o capitão interpretado por Kim Woo Bin (de Herdeiros), em uma volta gloriosa aos palcos depois de vencer um câncer. Sua relação do mesmo vai-não-vai com a Yeong Ok me incomodava muito. Uma curiosidade é que o ator é casado com a Shin Min A (Minha Vênus e Hometown Cha Cha Cha), que também está na série, como uma das personagens mais interessantes, retratando pessoas com depressão com uma representação bastante estética.

Lee Byung Hun (nosso Mr. Sunshine) é um vendedor ambulante, aqui seria o “moço do carro da pamonha”. Inclusive, ver dublado é bem engraçado porque o dublador se empenhou em fazer bem a voz de vendedor e ficou bem legal. O personagem tem uma relação ruim com sua mãe (Kim Hye Ja, de Dear My Friends), sendo bastante grosseiro com ela por ter sido abandonado, e era apaixonado na adolescência pela Min Seon A (interpretada pela Shin Min A). Que nervoso que dava de vê-lo em cena com a mãe, que tem um câncer não tratado. Porém, é um personagem facilmente identificável no nosso dia a dia e o dorama faz questão de explicar por que ele tem esses ressentimento com a mãe, já que o que olhando de fora parece “pura ingratidão”, na verdade são feridas de uma criança rejeitada.

Minha personagem favorita de todas é a da primeira história, Eun hui, a chefona do mercado bem sucedida financeiramente (Lee Jung Eun, Juvenile Justice e Para Sempre Camélia), mas cujas pessoas tentam se aproveitar. Adorei que temos um desenvolvimento bem completo dela, seja em relação à parte amorosa, quanto das amizades e o que acontece com aquelas amizades (Uhm Jung Hwa, O Romance de uma Bruxa) de longa data que a gente tolera com o tempo, mas vão ficando intoleráveis quando abrimos os olhos.

Outro núcleo que me encantou muito, mas quebrou meu coração em cada pedacinho de lua foi o da vovó Chun Hui (Ko Du Shim, de Para Sempre Camélia, My Mister e Dear My Friends) e sua netinha Eun Gi (Kim So Yu, de Hospital Playlist; Oh My Baby; Amor, Casamento e Divórcio), embora o choro dela às vezes estivesse me irritando um bocadinho às vezes. Para mim, foram os episódios mais fortes e emocionantes.

Conclusão

Alguns vão dizer que Our Blues é “chato”. É um retrato dos moradores de uma ilha, suas infelicidades e pequenas conquistas do dia a dia. Confesso que por mais que eu aprecie tramas complexas e sensíveis, Our Blues carece de ritmo e, por vezes, os núcleos se estendem por demais (como o núcleo da gravidez na adolescência, com os protagonistas da Roh Yoon Seo e do Bae Hyun Sung, de Hospital Playlist e Extraordinary You, que embora tenham feito um bom trabalho, senti que carregaram muito). Porém, é muito interessante como, assim como alguém que você conhece, a série cresce em você conforme você conhece mais a fundo os personagens e entende suas motivações, além de tornar mais difícil testemunhas suas dores e como suas vidas são difíceis.

Não é uma série de mero entretenimento, mas de uma espécie de contemplação de vida real. Pode ser que os primeiros episódios não lhe agradem, mas se você geralmente gosta desse tipo de história, espere para vir o seu núclero favorito. Algum deles vai mexer com um assunto que lhe é caro e aí, ah, aí você vai sentir cada minuto da obra e não vai querer parar até saber o que acontece com aquele personagem favorito.

Mesmo assim, eu recomendo, muito, para quem quer ver uma história sensível e, ao mesmo tempo que simples, complexa e rica em humanidade. Our Blues não é sobre um casal apaixonado, poderes mágicos ou dramalhões forçados. É uma história coletiva, na qual as pequenezas delicadas das vidas individuais se tornam “nosso” ( “our” do título), um coletivo de tristezas (“blues”) e felicidades agridoces que compõe uma ilha pacata, que por sua vez estão interligadas com seus vizinhos do continente. Our Blues é uma história de amor em várias formas que diz respeito ao humano e quão melhor do que uma espiada na vida de nossos vizinhos para sermos lembrados de que todos somos partes do mesmo azul?

O senso de comunidade dos personagens também é tocante, principalmente quando sabemos das particularidades de cada um e isso vai convergindo para o grande momento e mais triste da série. Vemos cada um daqueles moradores colaborando e fazendo parte de algo grande e inevitável para todos eles. Não seria essa a solidariedade e o coletivismo belo de pequenas vilas que acaba se perdendo em grandes centros? É essa humanidade que a ilha de Jeju resgata.

Nota:

Avaliação: 4 de 5.

O que ver a seguir?

Recomendo outros doramas da Noh Hee Kyung, mas especialmente My Dear Friends, que ouso dizer ser ainda mais catártico.

Para Sempre Camélia é outro do time de doramas extremamente lentos, mas que possuem esse aspecto de dia a dia de vila, contanto com atrizes de Our Blues.

Unicamente por causa do tema litorâneo, eu vou indicar a escolha óbvia de Hometown Cha Cha Cha, que tem a Shin Min A, mas aqui sim é uma comédia romântica, com um toque de drama.

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