Resenhas de Kdrama

[Resenha] O Som da Magia: dorama musical escolar com carinha de filme da Disney sobre fé

The Sound of Magic (2022) é um doram dublado musical de apenas 6 episódios da Netflix sobre a vida sofrida de uma jovem colegial introvertida que foi abandonada e vive sozinha com sua irmã mais nova. Ela sofre na escola e com a pobreza, pois sua família deve para agiotas, até que encontra um misterioso mágico disposto a fazê-la voltar a acreditar em mágica.

A história é baseada na Annarasumanara. uma webtoon da autora Ha Il Kwon que por anos foi considerada “cult” entre os apreciadores de mangá/manhwa. O traço é bastante peculiar e artístico, apresentando quadros em preto e branco cheios de sombras, por vezes misturados com elementos da realidade (como dinheiro colorido e flores, como uma foto com colagens montada) e com poucos quadros por página.

Já a adaptação com roteiro da Kim Min Jung (Love in the Moonlight, Imitação e Who Are You: School 2015) tem um ritmo morno, mas não é mais do mesmo, a começar pelo fato de que é um musical. Outra boa característica é que, diferentemente da maioria do gênero, o ambiente escolar não é uma academia de namoros. Temos uma aluna do ensino médio que vive sozinha em condições precárias, com problemas de adulto E de uma adolescente em formação, sem acolhimento nem de amigos, nem de familiares. É uma personagem interessante e todo o ar da série lembra bastante um filme da Disney, com uma heroina sofrida e um mundo mágico que se abre diante da dificuldade.

A direção do visual caprichado que dá o tom “Disney” de qualidade para a produção é de Kim Sung Yoon, que dirigiu Love in the Moonlight e Itaewon Class.

Elenco

@kdramakisses

Ji Chang Wook (Apaixonados na Cidade, Me Derretendo Pouco a Pouco, Backstreet Rookie, O K2, Healer e Suspicious Partner) é o rei do dorama, ou melhor, o mágico showman que vive em um parque de diversões abandonado. Sendo o ator mais experiente (e belo) da série, é claramente um show sobre ele e seu personagem. Caso ele não tivesse carisma, não daria certo. Além disso, ele transita entre o mágico sedutor e um vilão, dependendo de quem fala. Aqui eu vejo um visual Barnum, de “O Grande Show”, com seu carisma forte e lábia, e uma personalidade meio Eric, do “Fantasma da Opera”, pois ele vive recluso e não tem boa reputação, por vezes sendo dúbias suas motivações. Ele acolhe a protagonista como Peter Pan e tenta levá-la para sua Terra do Nunca. Seu nome “Ri Eul” tem uma sonoridade que lembra “REAL”, como uma brincadeira de que a magia pode ser verdadeira.

@sofarawayinthemilkyway

Choi Sung Eun (Além do Mal) interpreta Yoon Ah Yi, a mocinha típica de musicais, que é sofrida e batalhadora, além de ser muito inteligente e boa em matemática. Ela poderia ser a Christine, indo pelo caminho óbvio, mas a personagem de musicais que mais vejo nela é a Cinderella e a própria Wendy. Seu nome em coreano significa “criança”, e é basicamente uma história sobre a perda da inocência, a passagem para a maturidade de forma sofrida e traumática, sendo forçada a crescer e viver feito adulta, mesmo que seja tão ‘bobinha’ como uma criança. É uma personagem interessante forçada a viver nos dois mundos cedo demais e que constantemente tem sua “fé” (o tal do acreditar em magia) questionada. Quando está a beira de perdê-la, ela encontra alguém disposto a fazê-la voltar a ter esperança.

@kimgoeun

E vamos de personagem irritante interpretado pelo Hwang In Yeop (18 Again, Beleza Verdadeira, The Tale of Nokdu). Ele é um rapaz inteligente (na webtoon ele tem um cabeção, literalmente) que compete com as notas excelentes de Ah Yi e é bastante egoísta por causa de uma criação voltada para o sucesso. Sua presença no dorama é fundamental para dar uma raivinha quando achamos que algo está dando certo. Gostei do clichê de dorama subvertido aqui, já que ele poderia ser um príncipe que a salva, mas vemos que não é bem assim. Ele também tem uma conexão inesperada com o principal, que me lembrou o musical “Peter Pan”. São meninos que não querem crescer.

Queria citar também a personagemda Ji Hye Won, simplesmente porque ela é uma atriz que atuou como paciente da clínia em Tudo Bem Não ser Normal. A personagem é uma vilãzinha das perversas que me lembrou a garota do bullying em Who Are You (School 2015).

O que não é tão legal

Apesar de tudo, achei um pouco lenta a narrativa. Penso que se fosse um filme, teria sido excelente, mas como são 6 episódios, há muito vai e vem que faz com que a história caminhe muito pouco e repita situações. O plot twist no 4 começa a esquentar a série, o que reforça minha vontade que essa produção fosse um filme. São abusos e injustiças que a garota sofre no ambiente escolar e fora. A vida dela é sofrida, mas acredito que teria sido mais impactante talvez se fosse resumido, porque concentraria todo o drama e explodiria em um ápice, depois traria a magia para salvá-la, mas da maneira como foi contada, o clima esquenta e esfria bastante, além de também tirá-lo de um momento catártico proporcionado por cartas. Como é baseada na webcomic, dá para entender por que mudanças não foram feitas, mas no papel, a gente pode ler mais rapidamente, mas aqui a sensação é que somos forçados a ler nessa velocidade.

A parte de musical para mim sempre perde se você não sabe o idioma original, por conta de trocadilhos e brincadeiras de palavras. Ao mesmo tempo, seria um grande desafio dublar isso, mas eu talvez tivesse preferido, pois traria mais impacto. Como fã de musicais, sou encantada pela trama contada com música, mas não sou muito fã de ver em idiomas que não domino. Parece que tem uma beleza complementar ao ouvir as palavras certas sendo pronunciadas ao mesmo tempo que certas notas são atingidas, pois a mensagem chega com os sentimentos certos.

Você acredita em mágica?

O poder da fé

É interessante como o papel do mágico, mais velho e que tenta conservar a criança interior, é fazer com que uma jovem que perdeu a inocência pelas mazelas da vida e perversão de adultos e outras crianças más recupere a fé, a verdadeira magia proposta pelo dorama. Interpretei o convite sobre acreditar em mágica como, simplesmente, ter esperança. É aquela crença infantil mágica que é perdida quando algumas certezas da vida adulta aparecem, quando perdemos entes queridos e paramos de ganhar presentes. Para alguns, é um ciclo natural do amadurecimento, mas é triste ver quando isso é forçado a pessoas tão novas.

Quando ela está no desespero e prestes a desistir, ela encontra uma mão estendida para ela ofertando a magia. Ao recuperar esperança, a vida difícil de Ah Yi começa a mudar e valer a pena, mas nem todos os problemas são resolvidos. Mesmo assim, por pior que sejam as situações que ela enfrenta, a cada novo desafio ela tem a fé no mundo, em si mesma. Quando questiona a bondade do mundo a cada provação, ela resiste porque acredita.

“A mágica não faz milagres, mas permite que você os descubra”

Em determinado momento, é o mágico que precisa da fé de seus discípulos, pois também possui um passado desesperançoso de uma criança que não queria crescer. Esta é a mensagem que captei do dorama, que parece mais bonito ao pensarmos assim.

Em escala menor e leve como um filme teen, também faz críticas sobre o sistema educacional coreano rígido e os padrões da sociedade que tenta colocar até os sonhos das pessoas em caixas e obrigá-las a seguir esse molde ou serão chamadas de loucas.

Com tudo isso, O Som da Magia é um dorama diferente e amistoso, que mistura um pouco de Peter Pan com Fantasma da Ópera, indicado especialmente para quem quer ver uma série escolar com drama, quem possui uma crença religiosa (que poderá ver com um viés mais poético e tocante as provações da protagonista), e também para fãs do Ji Chang Wook. Traz drama e dificuldades reais para um ambiente de inocência, o que achei bem feito e acima da média de qualquer romancezinho bobo. Porém, poderia ser mais dinâmico, já que os episódios parecem longos demais (motivo pelo qual demorei tanto para fazer uma resenha).

Explicando o final depois dos créditos

O final depois do final (falo assim para você não tomar spoiler), na minha opinião é só uma homenagem aos musicais, fazendo um ato final e mostrando o elenco, dando a oportunidade de todos serem aplaudidos. Não acho que faz parte da história ou que ela invalida todo o resto, mas pode, sim, significar que tudo foi um roteiro apresentado em um palco…

Nota:

Avaliação: 3.5 de 5.

O que ver a seguir?

Pensei em indicar Desgraça ao Seu Dispor por causa de uma possível temática religiosa. Doom At Your Service é literalmente sobre Deus, esperança e desgraça.

Um doraminha escolar pela mesma roteirista é Who Are You, esse é bem mais típico, mas bem charmosinho.

Se você gostou mesmo foi da crítica ao sistema educacional coreano, Sky Castle, também na Netflix, é uma ótima pedida.

Por último, se você quiser continuar no tema de crimes envolvendo menores de idade e ir para uma linha policial, veja Juvenile Justice.

3 comentários

  1. Amei essa resenha, completa e detalhada. Fiquei com bastante vontade de assistir, tanto pela trama quanto pela estética desse dorama. Gosto muito de histórias como essa, em que a personagem começa passando por algum tipo de dificuldade e, aos poucos, vai recuperando a fé na vida e nas pessoas.

    Curtido por 1 pessoa

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