[Resenha] Itaewon Class é ousado, intenso e uma celebração do imperfeito

Uma cena de atropelamento explícita gravada com uma câmera presa no corpo do ator para que apareça sangue, o momento em que ele se choca contra o carro e vai ao chão, um garoto em uma turbulenta noite chuvosa, e uma tensa construção de personagem filmada em um galinheiro foram cenas que nunca vi em um drama coreano antes. Aproximando-se de uma narrativa realista, com toques satíricos e personagens cheios de personalidade e bons diálogos, Itaewon Class é um drama do catálogo do Netflix que vale muito a pena.

Pegue um pouco do clima pessimista – mas bem humorado e irônico – de Lutando pelo Meu Caminho (o protagonista, inclusive, é de lá) com a brutalidade satírica de Sky Castle e você tem uma ideia do clima inicial desta série, que é baseada em uma webtoon de Jo Gwang Jin. JTBC está de parabéns – e acabou ganhando uma das séries mais vistas do canal. É também o primeiro drama da Showbox, uma das maiores empresas de distribuição de filmes do país.

A história se passa no bairro de Itaewon, que abriga estrangeiros e excluídos da sociedade que buscam diversão e liberdade. O lugar ideal para um ex-presidiário, um bastardo, uma mulher trans, um coreano negro e uma sociopata se unirem por uma causa maior: o sonho de vingança de alguém que perdeu tudo. Qualquer outra informação além disso é spoiler, mesmo que esteja na sinopse, e eu não recomendo que ninguém leia nada para não perder a experiência do primeiro episódio – decida a partir do primeiro completo se vai querer ver ou não.

Personagens

Se você detestar um dos três personagens principais, saiba que você vai passar muita raiva na série. O ponto alto – e o mais criticado também – de Itaewon Class é que ele convive com personagens imperfeitos, que erram, e erram FEIO. Existe uma celebração da imperfeição aqui, mesmo de personagens que são sinceros até machucar, ou de ambiciosos que são determinados até a cegueira. Todos têm seus defeitos e são aclamados por isso, perdoados e em dado momento até recompensados na história. É o uso do defeito para conquistas maiores, mostrando que é possível apropriar-se de uma característica que é considerada ruim como maneira de fazer algo.

O nosso protagonista, Park Saeroyi, é interpretado por Park Seo Joon (Fight for My Way e What’s Wrong With Secretary Kim). Em aura de mocinho badboy, o ator está espetacular em sua transformação através do tempo. A entrega dele é madura e completa o personagem. Sua maior virtude e também maior defeito é o orgulho. Ele é obstinado em sua vingança, mas tão fincado em seus valores, que chega enfrentar duras perdas por isso e até envolve outras pessoas nisso, sem perceber.

Kwon Nara, ex-Hello Venus, começa como uma mocinha atípica, um tanto covarde por um lado, mas diligente até em sua frieza. Ela tem escolhas morais bastante duvidosas, mas justificadamente humanas. É a personagem que mais me incomodou do começo ao fim, mas ao mesmo tempo é uma das mais “reais”. Ainda que ela tenha intenções de ajudar quem ama, seu defeito – e também maior qualidade – é se colocar sempre em primeiro lugar, em todas as situações.

Kim Dami (em seu primeiro drama, já tendo sido premiada pelo filme “The Witch”) interpreta Jo Yi Seo, uma influencer digital muito inteligente que odeia pessoas e o sistema coreano. Desbocada, ácida, sincera até demais, ou você a ama, ou a você a odeia. Se descobrir até o quarto episódio que o seu é o segundo caso, provavelmente Itaewon irá incomodá-lo muito. Para mim, é uma das personagens mais ricas e diferentes que já vi em um drama, gostei muito do primeiro arco dela, pois ela tem a coragem de fazer o que boa parte da audiência tem vontade, mesmo que, por um outro lado, peque pelo excesso.

Além deles, a série se propõe explorar um pouquinho da vida de uma mulher trans (que não foi interpretada por uma atriz trans, mas a discussão ainda assim foi válida); um coreano com a mãe africana, interpretado pelo ator e produtor musical Chris Lyon; um ex-presidiário, que teve o menor desenvolvimento dos outros dois; e um filho bastardo de uma família rica, que sem dúvidas teve o pior desenvolvimento de todos, não por não ter tempo de cena, mas por sofrer uma mudança brusca pouco construída.

Esqueça a sororidade, porque aqui é ódio mesmo

Por que não gostar? Esse último ponto sobre um personagem específico que sofre uma reviravolta grosseira fez o drama cair em pelo menos meio ponto para mim. Dá para entender o que ele faz, mas não é orgânico. Além disso, se você detestar Saeroyi, Sooah ou Yiseo, existe uma chance grande de você não conseguir embarcar na história. Além disso, os dois últimos episódios forçam uma situação para fechar os arcos que já um milhão de vezes em outros dramas, e Itaewon não precisava disso. Por último, o romance – Itaewon Class não precisava de romance para dar certo, mas ele está lá. Se você não quer que um casal aconteça de jeito nenhum porque acha que as personagens não o merecem ou vice-versa, você vai odiar.

Com quem fica Saeroyi? Selecione e copie o texto para descobrir o spoiler do final de Itaewon Class.

Com a Yi Seo. Ele percebe que ela sempre esteve ao seu lado em todas as dificuldades. Eu gostei bastante da escolha, porque, na minha visão, enquanto a Sooah só queria que ele parasse com a sua vingança e fosse viver com ela – e o boicotava milhares de vezes no processo – a YiSeo lutava POR ele e COM ele, mesmo depois de ser rejeitada. Só achei que ela ficou muito obsessiva, porém prefiro esse casal.

Com tudo isso, é um excelente drama (se você tiver estômago para aguentar as injustiças) com músicas lindas – uma delas foi escrita pelo V, do BTS, que é muito fã da série e amigo de Park Seo Joon. Muito intenso, triste, e que mexe com seu senso de justiça – não à toa foi uma das maiores audiências da JTBC. É uma história de superação, luta constante, muito companheirismo e enfrentamento de adversidades, mesmo que demore muito tempo. Ácido, forte, chocante e ousado, Itaewon Class cria seu próprio método de contar uma história, tentando ser uma voz aos excluídos e um ode a ser você mesmo, ao trabalho duro, à perseverança e às boas companhias na esperança de dias melhores.

O que ver a seguir? Sky Castle tem um ar semelhante de crítica social, especialmente no sistema coreano obcecado por notas perfeitas, mas o tom é bem mais satírico.

Se o seu maior prazer é vingança, tente My Ahjussi (Meu Senhor), que é uma série densa e cinzenta sobre a humanidade, com personagens rancorosos em uma jornada de redenção.

Se você quer um grupo de excluídos que só se da mal, mas tenta viver de seu jeito, o drama para você é Lutando pelo Meu Caminho/ Fight for My Way, cujo protagonista também o Park Seo Joon.

5 comentários em “[Resenha] Itaewon Class é ousado, intenso e uma celebração do imperfeito

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  1. Bem, eu vi apenas o primeiro episódio e não gostei. No início, a resenha me deixou entusiasmada a retomar, mas o final dela me fez voltar a ter o gosto amargo na boca em relação a série. Não sei se voltarei a assistir.

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