Resenhas de Kdrama

[Resenha] My ID is Gangnam Beauty: dorama questiona padrões de beleza

Minha Identidade É Beleza de Gangnam é um dorama de 2018 que entrou para o catálogo da Netflix em 2022. Você pode assistir no Viki também.

Crédito: dramalandbrasil

A história é baseada em uma webtoon de Maenggi Ki, que também desenhou “No Longer a Heroine!”. O roteiro foi escrito pela Choi Soo Young, de Love to Hate You, da Netflix.

Kang Mirae é uma jovem que sofreu bullying a vida inteira por críticas a sua aparência, decidindo, após se formar no ensino médio, fazer uma transformação total com cirurgia. Ao se formarem no ensino médio, muitas jovens coreanas ganham de presente uma cirurgia de pálpebras duplas de seus pais em vez de “um carro” como acontece em algumas culturas ocidentais.

É muito fácil chamar de “fútil” quem se preocupa tanto com a aparência como nossa protagonista quando não se viveu ostracismo social simplesmente por ter um rosto ou um corpo que não agradava uma maioria. É uma dor de não poder existir, não poder ser quem você é simplesmente porque as estruturas físicas com as quais nasceu não são de acordo com o que a mídia impôs enquanto ideal naquela época – e até isso é mutável.

Do ponto de vista mental, todo mundo em algum momento sente que precisa de alguma coisa para preencher um certo vazio existencial. Todo mundo fantasia com “aquela” coisa que vai finalmente te fazer feliz. “Se eu ganhasse na mega-sena… Se eu fosse rica… Se eu não tivesse me casado… Se eu tivesse amigos… Se eu tivesse começado mais cedo…” Para Mirae, esse poder imaginário que a tornaria mais completa foi a beleza, que ela buscou através da cirurgia.

@kdramafeeds

O mais cruel é que mesmo após mudar completamente quem ela era para tentar se encaixar e ser bem tratada, ainda assim parte das pessoas continua a tratando mal porque agora ela é “Beleza de Gangnam”. Gostei muito como, inicialmente, o dorama não simplesmente mostra a transformação física da protagonista como uma súbita resolução de seus problemas e pelo contrário, lhe confere novos, como assédio e inveja por competição. Se antes ela não era tratada como uma pessoa, mas como “monstro”, agora ela se transforma em “produto”, “objeto”. Seu valor vira exclusivamente sua aparência e o fato de ter feito cirurgia a “deslegitima”. Vi com o coração partido.

O que significa beldade de Gangnam?

É um estereótipo carregado por quem é todo “botocado”, se formos traduzir para nossas gírias em português. Ou seja, que tem um aspecto “artificial” e cheio de plásticas. Por aqui no Brasil, pense na tal “harmonização facial” e as críticas que são feitas a ela. Deve ser esse o sentimento dos coreanos quando falam em Beleza de Gangnam. Ou seja: só tem direito de fazer parte da elite quem teve a “sorte” de nascer do jeitinho que o Photoshop gosta.

Fiz uma consulta rápida com a influencer Paula (Instagram: pabmuna) e verifiquei que uma cirurgia custa na Coreia do Sul entre 1.500~2.500 dólares, variando de clínica para clínica. Para pálpebra dupla, entre 800~1.000 dólares, e V line, 1.000~2.000. Dá para imaginar quanto dinheiro a protagonista gastou e a reação de seu pai.

Elenco de Minha Beleza de Gangnam

Um ponto que achei muito cuidadoso e positivo foi não mostrar por inteiro a atriz adolescente quando era considerada “feia”, apesar de terem mostrado a atriz mirim gorda. Acho uma das escolhas mais cruéis possíveis escalar uma adolescente para ser o estandarte da feiura sem ter nem a chance de se “transformar” com o próprio rosto. Além disso, seria dar nome ao que é considerado feio e fazer com que qualquer menina (e a própria) parecida com ela se sentisse assim.

@valerieemperez

Lim Soo Hyang (Quando Eu Era a Mais Bonita, IRIS 2) não passa muito a ideia de ser uma caloura, mas imagino que tenha sido escalada pois a atriz sofreu críticas sobre cirurgia plástica e comentou isso em uma entrevista. Gostei da persongem em si, mais tímida e insegura. É difícil uma personagem tão mundana assim. O fato de que a atriz parece mais madura fez a personagem ficar com um aspecto de deslocada, como penso ser o correto. Combina, gostei, mas sei que não é para todo mundo. Definitivamente não é uma mocinha convencional: é extremamente tímida e não se desenvolveu muito socialmente. SIM, ela é esquisita, mas isso tudo é sintoma. Ela age assim porque a trataram mal a vida inteira e a reação das pessoas reais a essa personagem deixa bem claro por que foi tão sério o que ela sofreu.

@sawasawako

O bonitão da série é interpretado por Cha Eun Woo (membro do Astro e ator de Beleza Verdadeira). Ele é tão tímido que às vezes me perguntei se seu jeitão travado era por causa da atuação ou o personagem teria algum segredo escondido. Sei que muita gente pode se incomodar com esse mocinho super introvertido e pouco desenvolto. A combinação entre dois introvertidos ao extremo gera um romance bem levinho, por vezes quase robótico. Por algum motivo eu achei tudo isso bem bonitinho, especialmente quando ele explodia para defendê-la.

Fui conferir a webtoon e percebi que lá o protagonista tem traços mais “bad boy”, mal humorado, do que “bonzinho triste cansado”. Será que foi uma escolha da direção? Mesmo sendo personagens com auras um tanto diferentes, não me incomodei tanto nas interações com ela, mas nas cenas de choro, sim.

O elenco de apoio é uma graça. Fiquei bem feliz de ver que os pequenos núcleos formados na faculdade são bem interessantes e têm suas cenas dedicadas. As famílias também são importantes e os parentes possuem sentimentos e motivações, algo que não é comum de ver em doramas.

@kdramafaces

De rostinhos conhecidos das famílias, destaco os pais de Do Jyung Seok, a Park Joo Mi, de Amor, Casamento e Divórcio, e Park Sung Geun (de Private Lives, Stranger, Sweet Home…), mas os da Mirae são uns fofos, com medos e preocupações sobre a posição da filha na sociedade que parecem muito verdadeiros. Uma coisa que precisa ser dita é o esforço da atriz Lee Ye Rim (Hae Ryung, a historiadora), que ganhou 9 kg só para fazer o papel.

É claro que precisamos falar separadamente sobre a melhor amiga da Mirae, a baixinha interpretada pela atriz Min Do Hee (Longing Heart, 365, How to Buy a Friend e Fadas da Limpeza), e o veterano Kwak Dong Yeong (Vincenzo, guardinha de Moonlight Drawn by Clouds, My Strange Hero e uma participação em Tudo Bem Não ser Normal). Quanto carisma! Apaixonei. Nunca torci por ele no triângulo amoroso, pois achei que não aconteceria. Queria que a amiga e ele tivesssem tido mais cenas.

A vilã interpretada pela Jo Woori (fez uma médica em Descendentes do Sol) também é bastante única. Nunca vi uma que parecesse ser agradável e fosse tão sonsa e manipuladora sem parecer, de fato, uma vilã para os outros personagens. Gostei muito e vou sentir falta desse tipo de antagonista. Além disso, a Sooah é também um tipo de vítima dos padrões e de machismo, pois precisou se ajustar, treinar-se a ser “muito gentil e não muito inteligente, sempre simpática” para agradar a todos.

Algumas reflexões

A minha parte favorita da série é o debate. A aparência física é um cartão de visitas de como a sociedade trata uma pessoa, que ganha vários privilégios por causa disso. Estar dentro de um padrão é fazer parte de um clube majoritário poderoso que escolhe quem merece ser bem tratado. Porém, fazer parte dele também tem seu preço, que é apagar sua própria essência e transformar-se em outra figura mais homogênea, disforme e sem um limitador exato de onde começa a opinião e visão do outro e onde começa aquela pessoa.

Ou seja: vale a pena deixar de ser isso que se é, seja lá o que for, para ser parte de um todo? A curto prazo, talvez doa menos, mas há muito que se perde dentro daquela massa e o dorama traz um pouco disso. Infelizmente, sem avançar demais no tema e se perdendo da metade para frente, mas ainda assim é algo raro em séries no geral.

O que não é tão legal? Quem não vai gostar?

@kdramafeeds

Eu ficaria feliz em dar uma nota mais alta para Gangnam Beauty, mas infelizmente o ritmo decai um pouco após o oitavo episódio. Se fosse uma série de 12, provavelmente seria perfeito. Senti que eles começaram muito bem, mas depois pararam de discutir as questões, os traumas, a escola e virou só mais uma comédia romântica bem fofinha (e alguns podem nem concordar com isso) e convencional que faz algumas voltas apoiadas na insegurança da protagonista e passividade do mocinho. Podia ser mais, ter mais flashbacks do passado, por exemplo, ou endereçar diretamente a aparência anterior dela e seu trauma. Mesmo assim, vale a pena para quem gostar de séries com um ritmo bem leve.

Porém, se você não gosta de séries mais lentas, sem fortes emoções ou acontecimentos, passe muito longe. Tudo aqui tem a energia baixa, até a “grande vilã” da série ou sua trilha sonora toda suave, quase inteira sussurrada.

Mas se você só quer mesmo uma comédia romântica escolar (faculdade) bem docinha e leve sobre esse assunto, acho que é uma ótima recomendação.

Conclusão

Essa foi uma das séries que eu relutei muito em assistir, porque esse tema me é muito caro. Como série, não foi a melhor de todas que eu já assisti, pois perde um pouco de sua substância da metade para frente, mas dependendo de como você assiste, ela pode falar com você e trazer várias questões. Mesmo no final sendo “só” uma comédia romântica bem levinha e lenta, não me arrependi de assistir. Se você vai gostar, vai descobrir logo nos primeiros episódios, pois o clima não muda muito disso.

Nota:

Avaliação: 3 de 5.

O que ver a seguir?

Beleza Verdadeira é a primeira opção que vem a mente. O ator inclusive é o mesmo. É a história de uma garota “feia” que se disfarça com muita maquiagem, mas tem vergonha de si mesma.

Switched, um dorama na Netflix curtinho que conta a história de uma garota excluída que troca de corpo com a mais popular do colégio. Traz bastante debate, aqui falando um pouco sobre como a personalidade interfere nas percepções das pessoas e como esta é construída a partir de como somos tratados.

Outro no Netflix (até o momento), é Beleza Interior, também com troca de corpos. Não fala muito sobre padrões de beleza, mas como a personagem principal troca de aparência sempre, é interessante ver como isso afeta como os outros a tratam.

Por último, se quiser um dorama escolar de bullying, recomendo Escola 2015.

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