Texto por: Leticia Steenhagen (Hae Shin) em colaboração especial ao site.
“Diva à Deriva”(Castaway Diva) é o trabalho mais recente protagonizado por Park Eun Bin, a nossa icônica “Woo Yeon Woo” de Advogada Extraordinária (confira a resenha aqui). Provando-se uma das atrizes mais versáteis de sua geração, Eun Bin nos entrega, acompanhada de um talentoso elenco, uma história de otimismo e esperança, como um conto de fadas que não erra em sua dose.
Transmitido pela tvN entre outubro e dezembro de 2023, Diva à Deriva é um dorama de 12 episódios, escrito por Park Hye Ryun, conhecida por trabalhos como Dream High, Apostando Alto, Enquanto Você Dormia, entre outros (confira nossa matéria sobre seus trabalhos aqui); e dirigido por Oh Choong Hwan, diretor de sucessos como Hotel del Luna, Meu Amor das Estrelas e que assinou ao lado de Park Hye Ryun os doramas Start-Up e Enquanto você Dormia. Aqui no Brasil, o dorama foi lançado semanalmente pela Netflix e ocupou o top 10 durante sua exibição, muito impulsionado pela dublagem. Atualmente, todos os episódios já se encontram disponíveis em seu catálogo.
Em seu elenco, além da Park Eun Bin, temos Kim Hyo Jin (The Good Detective; Private Lives), Chae Jong Hyeop (Apesar de Tudo, Amor; The Witche’s Dinner), Cha Hak Yeon (Bad and Crazy; É tudo meu; Familiar Wife) e Kim Joo Hun (Start-Up; Melodia da Esperança; Tudo bem não ser normal).
SINOPSE:
Seo Mok Ha (Park Eun Bin/ Lee Re) é uma talentosa adolescente que tem o sonho de seguir os passos de sua ídola, Yoon Ran Joo (Kim Hyo Jin), de sair da Ilha onde mora e se tornar uma cantora famosa. Quando uma audição é promovida pela empresa fundada por Ran Joo, Mok Ha conta com a ajuda de seu amigo, Jung Ki Ho (Moon Woo Jin) para gravar um videoclipe e concorrer a uma das vagas para audições presenciais em Seul. Uma vez que a primeira etapa é vencida, Mok Ha e Ki Ho se preparam para partir juntos numa aventura até a capital, mas um infeliz acidente, separa os amigos e a jovem termina numa ilha deserta de onde só sai 15 anos depois.
PERCEPÇÕES DA TRAMA:
Sua sinopse, à primeira vista, pode não parecer tão atraente e envolvente. Principalmente quando passa a sensação de que terá muito de seu tempo focado em monólogos da personagem principal numa ilha deserta.
No entanto, a partir do momento em que se dá uma chance à história, torna-se praticamente impossível desviar o olhar da tela. Com um ritmo de narração delicioso, nem um pouco cansativo, muito menos chato, Diva à Deriva nos apresenta, além da trama principal, subtramas de conteúdo sensíveis, como violência doméstica, depressão e o etarismo da indústria musical, sem perder o tom ou sua cor inicial. Em nenhum momento, ela é sombria, embora, tampouco trate desses temas de modo leviano, sem a seriedade que eles merecem.
Existe um equilíbrio entre as cenas que torna a experiência muito satisfatória e, por vezes, comovente. Ao longo dos episódios, os espectadores são levados a muitas emoções graças, também, à construção de personagens humanos, fadados a erros e acertos, bem como as relações interpessoais costuradas entre eles.
Outro ponto que conta a favor de seu ritmo está na própria musicalidade da trama. Como todo bom dorama, sua trilha sonora é um show à parte. Uma curiosidade é o fato da atriz Park Eun Bin ter realmente gravado todas as 9 músicas cantadas pela protagonista, tendo, inclusive, uma playlist no Spotify.
Conhecida por mergulhar, quase que literalmente, em suas personagens, a atriz não decepcionou em nada e fez aulas de canto ao longo de seis meses, treinando três horas por dia a fim de encontrar os agudos de sereia que Seo Mok Ha possui. Além disso, ela também aprendeu a tocar violão, apenas para compor a personagem que se sente muito à vontade com o instrumento. O resultado você pode conferir aqui:
Quando os teasers e MVs saíram, o público custou a acreditar que fosse ela, por conta da diferença. Eun Bin é conhecida por sua voz mais anasalada, ligeiramente rouca, mas cantando é outra história! Uma verdadeira diva, não é?
Além de toda essa entrega da atriz principal, o dorama também conta com uma química extremamente harmoniosa em seu elenco. Os laços criados nos leva a acreditar que aquelas pessoas realmente são amigas e existem. É fácil se identificar quando os personagens nos parecem reais e palpáveis, o que facilita ainda torcer pelo sucesso de todos eles.
Por todo esse conjunto da Obra, Diva à Deriva é dorama muito carinhoso, fruto de um esforço coletivo que merece ser apreciado até para que sua mensagem seja espalhada a um público cada vez mais plural.
A ILHA E SUA MENSAGEM
Não é raro que as histórias cujas premissas parecem simples sejam aquelas que nos levam a reflexões bastante profundas. O que era para ser apenas uma história de uma adolescente que sonhava em ser uma idol sul-coreana, mas que por incidentes da vida, ficou 15 anos presa, separada de seu objetivo, foi capaz de explorar muito mais do que isso.
Essa parte da resenha trata-se apenas de uma autorreflexão e a percepção dessa que vos escreve sobre o que a Ilha representa. Não entrarei em muitos elementos da trama, pois minha intenção não é estragar a experiência com spoilers, mas alguns exemplos serão usados para o melhor entendimento.
De modo geral, todos os personagens da trama compartilham duas coisas em comum: a primeira é que todos são sonhadores e tem objetivos bem definidos. Mas a segunda é que todos estão presos em uma Ilha particular, embora a protagonista tenha sido a única a permanecer, fisicamente, em uma.
Tal qual como acontece no Mito da Caverna de Platão, a Ilha pode ser considerada uma Alegoria, ou seja, a representação de algo maior, de um pensamento, uma ideia contada de outra forma. Tive uma sensação semelhante de quando assisti, anos atrás, ao dorama Trinta, mas Dezessete (resenha aqui), mas essa foi de modo ainda mais sensível.
Afinal, não são apenas os personagens que possuem uma Ilha, mas todos nós. Todos nós temos um momento da vida em que encontramos grandes dificuldades e obstáculos que nos separam e nos desmotivam a alcançar algo pelo qual sonhamos ou desejamos. Essas dificultosas experiências não têm um prazo certo, mas fato é que independente de ocupar quinze dias do calendário ou quinze anos – ou muito mais do que isso – ela sempre parece uma eternidade para quem está vivendo.
São adversidades que nos transformam em sobreviventes e, apesar da lição muitas vezes trazer um fardo pesado, quando ela é resolvida – porque, sim, todo sofrimento tem um fim – saímos mais fortes e maduros. Faz parte do desenvolvimento de quem somos e, não raramente, usamos esses momentos de referência para o presente e o futuro.
A Ilha que nos habita pode se manifestar de várias formas. Pode ser uma doença; pode ser solidão mesmo cercado de pessoas; pode ser uma bússola que não consegue mais apontar para o Norte; pode ser o medo constante de um trauma não resolvido. Mas fato é que por mais desesperador que possa parecer, desistir não é uma opção. Sempre aparecerá um cooler para te salvar, seja a Fé, amigos, famílias, bichinhos de estimação, plantas ou um reencontro consigo mesmo.
Não desejo aqui romantizar o sofrimento, pois quem me dera não precisássemos passar por adversidades. Mas como alguém que ainda tem o pé numa Ilha Deserta, gostaria que essa parte servisse como motivação e um carinho para você. Seus sonhos podem mudar um pouco de forma, talvez mude o contexto, mas ele está apenas a menos um dia de distância. Acredite nisso e siga em frente.
CONCLUSÃO
Este foi um dos meus doramas favoritos de 2023 e ganhou meu coração. Ele tem uma história envolvente, é musical (não como um gênero de dorama, mas pela sua essência envolvendo música) e lúdico. Mesmo as partes que precisam de licença poética para serem aceitas, como acontece em todo obra, acabam sendo bem aceitas quando você olha para o contexto como todo e a mensagem que quer passar.
Espero que depois dessa resenha, você se sinta curioso para vê-lo e goste tanto quanto eu. Independente de sua opinião final, convido-o a comentar o que você achou do dorama e se encontrou algum outro elemento que chamou sua atenção. Só lembre de alertar para possíveis spoilers!
Obrigada por ler até aqui e até a próxima resenha!
