Resenhas de Kdrama

Resenha de Três Irmãs: adaptação de clássico traz ideias instigantes, mas narrativa arrastada

Este dorama de 12 episódios dublados na Netflix se vende como uma adaptação do livro Little Women, de Louisa May Alcott. Na série, três irmãs que vivem na pobreza têm a vida virada de cabeça para baixo ao receberem uma quantia absurda de dinheiro e se envolverem com um grupo secreto de criminosos.

A história original

“Mulherzinhas” é um romance icônico escrito por Louisa May Alcott, publicado pela primeira vez em 1868. A história, que segue as vidas das quatro irmãs March durante a Guerra Civil Americana, foi pioneira em seu foco nas experiências e emoções das mulheres jovens, uma perspectiva rara para a literatura da época. Desde sua publicação, o livro foi elogiado por críticos e leitores, solidificando-se como um clássico amado da literatura americana. A habilidade de Alcott em criar personagens autênticos e relacionáveis, juntamente com sua visão sobre as questões sociais de seu tempo, como igualdade de gênero e pobreza, fez com que o livro continuasse a ser estudado, adaptado e admirado por gerações.

A série

A trama é tão repleta de detalhes que fica difícil de resumir e acaba se atrapalhando por causa disso. Porém, basicamente a vida de três irmãs pobres muda quando uma delas, que é contadora, recebe uma inesperada quantia de dinheiro deixada como herança por uma colega de trabalho misteriosa que tinha uma vida secreta. A morte dessa colega – que poderia ser um belo romance sáfico, na minha opinião – envolve toda a família em uma trama de investigação, corrupção e críticas sociais em um jogo político.

No início, temos uma jornada muito interessante do processo de corrupção de uma personagem aparentemente pacata. Gostei muito de como cada uma das três mulheres principais é envolvida por esse mundo de dinheiro, cada uma a sua maneira.

Antes de tudo, ressalto uma característica interessante e positiva: a trama é comandada por mulheres. A diretora é Kim Hee Won, de Vincenzo e O Palhaço Coroado – curiosamente, tramas com os mesmos problemas de ritmo vagaroso.

Adaptado pela roteirista premiada Jung Seo Kyung, do ótimo Mother e também do excelente A Criada (Handmaiden), seu histórico era muito favorável para produzir uma obra-prima. Porém, embora as ideias sejam frenéticas e de certa forma brilhantes, o ritmo é um pouco prejudicado e se torna um suspense demorado e um tanto arrastado. Até o episódio 3, por exemplo, as situações estão apenas sendo colocadas à mesa, lentamente se amarrando, depois se entrelaçam. Por volta do episódio 6, a trama dá uma engasgada tão forte que demorei meses para retomar, mas fiquei automaticamente extasiada com os episódios 7 e 8.

É uma série densa e demorada, com mais de 1 hora de duração por episódio, porém, uma vez que você for capturado pela narrativa, você pode querer passar a tarde maratonando, até que a série engasgue novamente.

Meu conselho é não desistir, pois tem ótimos momentos surpreendentes. No entanto, o enredo arrastado e a característica surrealista que os vilões da série vão tomando me deixaram um pouco confusa. A maioria dos personagens é unidimensional e, quando você imagina que eles estão evoluindo, eles dão três passos para trás e voltam para seu arquétipo.

Elenco

Wi Ha Joon (de Round 6, Bad And Crazy e Romance Is a Bonus Book) faz um bom trabalho. É um personagem de moral cinza que deixa dúvidas sobre suas intenções (e há alguns momentos de tensão proporcionados por ir), ao mesmo tempo que dá vontade de torcer por um romance entre ele e a protagonista – embora eu tivesse torcido mais por ela e a mocinha falecida. Fui me deixando encantar por ele e ficando curiosa sobre seu desfecho.

O material original é famoso por seus personagens tridimensionais e seu desenvolvimento ao longo do tempo, mas aqui vemos que as três irmãs possuem arquétipos muito claros: “A Inocente”, “A Heroína” e “A Rebelde”. No livro, há uma quarta irmã, mas na série seu final é precoce e por isso acaba não aparecendo.

Oh In Joo (Kim Go Eun, de Rei Eterno, Goblin e Yumi’s Cells) é a irmã mais velha. Uma contadora pacata, que quer manter suas irmãs seguras, mas questiona o mundo de conforto dos ricos, chegando a desejá-lo para si. O dinheiro inesperado mexe com suas estruturas e pensei que veria ali uma contaminação de seu caráter, mas isso é temporário. Ela é sempre enganada e manipulada por todos os personagens da série, o que dá uma sensação constante de medo e perigo em quem assiste, mas toma algumas atitudes que fazem questionar sua inteligência. Aqui ela representa a personagem Meg, a “mãe” das irmãs, o estereótipo de perfeição e feminilidade da época. Ela sonha com uma vida mais luxuosa, mas aprende a viver de maneira simples. Senti que faltou carisma e conexão da In Joo com o público, pois quando achamos que ela está evoluindo, a personagem dá três passos para trás.

Oh In Kyung (Nam Ji Hyun, de 100 Days My Prince e Suspicious Partner), chamada de “Incã” na dublagem, é uma jornalista cheia de ideais. Justa e obstinada, está disposta a ir até o fim para desmascarar os vilões da série. Ela possui um problema com bebida, mas isso logo é esquecido no decorrer da série. É uma das personagens mais gostáveis, por sua atitude, mas é uma heroína típica. Aqui deve representar a personagem Jo, que é impetuosa, impulsiva e aspira a ser escritora. Assim como Jo, a versão da série rejeita as normas tradicionais de feminilidade (a cena que ela rejeita alguém que se confessa para ela) e luta por independência e sucesso em um mundo dominado pelos homens.

Por último, a irmã mais irritante (Park Ji Hu, de All of Us Are Dead) e, talvez, por isso, a personagem mais diferente, é Oh In Hye, a mais nova que detesta a vida pobre que levam e se rebela ao modo que elas vivem, buscando um caminho um tanto egoísta para satisfazer a si mesma, rompendo os laços. Sua personagem no livro é assim também: vaidosa, artística e aspira a uma vida de luxo e riqueza. Apesar de seu materialismo inicial, Amy amadurece ao longo do livro e aprende a valorizar o amor e a família acima do status e da riqueza.

O problema aqui é que parece que elas ficam sentadas em cima de suas personalidades originais, sendo a mais gostável a jornalista, mas que, infelizmente, após desaparecer uma interessante relação com a avó, não faz outra coisa a não ser investigar.

No elenco temos também Uhm Ki Joo (O tradicional vilão de Penthouse, e médico em Perfume de Uma Mulher), em mais um marido abusivo e egocêntrico e Uhm Ji Won, que interpreta a esposa, simplesmente a personagem mais bizarra de toda a série, que causa os maiores problemas. Outro destaque na trama acaba sendo a intérprete da personagem misteriosa Jin Hwa Young (“Raiã” na dublagem), a atriz Choo Ja Hyun (de Clube das Mães e Minha família nada familiar). Lembrei um pouco da relação das moças de Handmaiden, e teria sido interessante ver esse desenrolar.

Refletindo sobre os prós e contras

A produção, todo o aspecto artístico da narrativa que contribuem muito para a construção de um cenário vivo e misterioso. O uso de recursos visuais aqui reforça os elementos investigativos e poéticos, como o sapato vermelho, o casaco, as orquídeas e até a abertura da série.

É paradoxal dizer que um dorama com ritmo arrastado possa ser, ao mesmo tempo, tão frenético, mas é o que acontece aqui. O melhor aspecto desse dorama é não fazer ideia do que vai acontecer. Tem conteúdo o tempo inteiro, em todos os núcleos e nada é o que parece. Nesse sentido de roteiro, é maravilhoso! O problema é que se em um instante ele alimenta a vontade de assistir sem parar, no outro, a escolha de transmitir por 1 hora e 40 os episódios faz com que inevitavelmente os momentos de repouso sejam angustiantemente prolongados.

Conclusão

O mistério em torno da sociedade secreta das flores é intrigante, mas a investigação arrastada e a falta de avanços significativos tornam o enredo monótono e, em certos momentos, entediante. É uma série com muito conteúdo de qualidade, mas difícil de assistir, com um ritmo crepitante, ora impactante, ora silencioso e chatinho. Mesmo assim, é com certeza um dorama de suspense que marcou 2022 e trouxe novidades narrativas pouco comuns ao dorama normal.

Nota:

Avaliação: 3.5 de 5.

Eu daria menos, mas a parte artística é realmente muito bem feita e a série tinha muito potencial e pode ser aproveitada por quem conseguir assistir.

2 comentários

  1. Ótimo texto. Mais eu queria ressaltar que li o livro vários vezas ( embora esteja longe de ser um favorito ) e esse dorama me deixou curiosa justamente por venderem como uma adaptação .Não tem nada à ver com o livro ABSOLUTAMENTE NADA . Apesar de disso gostei do drama a cenografia é linda e tem ótimos atores; mais fica a dica para quem leu o livro: não se trata de uma adaptação moderna da história, de fato acho que o roteirista sequer leu o resumo do livro. Uma pena, pois estava curiosa para saber como ficaria a história das irmãs no contexto da cultura da Coreia . Abraços de uma leitora entusiasmada de sua resenhas.

    Curtido por 1 pessoa

Deixar mensagem para Juliana B. Dutra Cancelar resposta