[Resenha] Garota de Fora: Black Mirror escolar tailandês baseado em histórias verdadeiras

Girl from Nowhere (2018) é um drama da Netflix produzido na Tailândia sobre Nanno, uma garota misteriosa (Chicha Amatayakul – Kitty Chicha) que é transferida para escolas problemáticas a fim de expor e vingar-se dos estudantes.

Um demônio?

Quem é Nanno? Somente no último episódio pode-se ter uma sugestão de quem é ela. Porém, independentemente do título que você dê (louca, demônio, fantasma, espírito…), ela é uma agente do caos e quem sustenta a série toda. Uma das delícias de GFN são as camadas caótico-neutras da personagem. Há quem assista e acredite que Nanno aja por pura maldade, mas a graça da série é que, por outro lado, ela apenas capacita personagens com sugestões ou o acesso a pequenos poderes para que ajam sozinhos. Nanno nunca força atitudes, apenas as facilita. É a personificação do schadenfrëude: dá aos envolvidos armas para que possam realizar seus desejos internos e expõe as podridões que cada um dos personagens principais daquela trama carrega dentro de si. É como um gênio da lâmpada que incita pedidos.

O formato: a série é uma antologia, ou seja, possui histórias independentes entre si, contendo com 13 episódios que contam 11 histórias baseadas em notícias de casos de violência que aconteceram dentro de escolas – assim como está escrito nos créditos. A princípio, pensa-se em uma série colegial de vingança, como Angry Mom ou algo do gênero. Porém, os elementos de sobrenatural, gore (violência gráfica) e roteiro surrealista aproximam Girl From Nowhere da série Black Mirror, mas pautado inteiramente no universo escolar, para criticar papéis sociais e a corrupção.

Revanchista, insano, reflexivo. GFN é uma crítica social ao sistema educacional tailandês, mas que pode ser aplicado no Brasil também. Cada história é uma crítica exagerada, transposta de forma literal para a tela (em um dos episódios, há a segregação até dos prédios das alunas bonitas e “feias”, por exemplo) e proporciona uma vingança cavalar para vítimas daquela situação.

Aborda questões como bullying, hipocrisia, corrupção, abuso sexual, e pecados capitais, como vaidade, inveja, luxúria e ira. Não por acaso, Nanno é chamada de demônio, por ser uma expositora das sombras humanas, testando constantemente a moral até os limites: uma pessoa oprimida seria capaz de tornar-se opressora se ganhasse poder? O que um ser humano aparentemente inofensivo seria capaz para garantir sua sobrevivência, acobertar um segredo ou mesmo manter seu status?

Essas questões todas são escancaradas em cada episódio, mas no último a série tenta costurar e deixar mais clara as críticas que foram feitas em um universo “absurdo” (mas que, tirando o fator sobrenatural que exacerba a exposição, não parece tão fora da realidade assim).

Momentinho vergonha alheia: a maquiagem em geral é risível, principalmente o sangue, que é muito falso, as risadas são forçadas, mas isso não tira uma experiência, no geral, positiva, e você acaba até achando ainda mais sinistro.

Quem vai gostar? Fãs de Black Mirror, fãs de Death Note, pessoas que sofreram qualquer tipo de ofensa no período escolar, pessoas que guardam rancor e adoram uma série sobre vingança sem lição de moral para o vingativo, fãs de um terrorzinho light, quem gosta de torcer por vilões.

Fuja desta série se: você odeia absurdos, violência, é sensível a qualquer tema exposto na série ou simplesmente detestou a personagem principal, que é a base de toda a história. Evite também se você necessita de explicações muito claras ou abomina uma história que valoriza um protagonista com a moral torta. A seguir não é spoiler, é apenas uma forma de fazê-lo parar de perder tempo: não espere saber quem é Nanno. A série não deixa completamente claro como algumas pessoas precisam que seja. Se isso lhe frustra, não veja!

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