Resenhas de Kdrama

O Juiz do Diabo: um dorama distópico moralmente questionável na Netflix

Em 2023, a Netflix acertou em cheio ao adicionar “The Devil Judge” ao seu catálogo. Este dorama de 16 episódios, lançado originalmente em 2021, nos transporta para uma distopia onde o julgamento público toma a forma de um reality show. A premissa é ousada: um juiz manipulador cria cenários para persuadir a audiência, enquanto um novato busca revelar suas verdadeiras intenções – mas até quando seus ideais vão sobreviver ao cenário cruel da política?

O roteirista Moon Yoo Seok, conhecido por “Miss Hammurabi” e com uma experiência real como juiz, tece uma trama densa e intrigante. Choi Jung Gyu, na direção, complementa a narrativa com uma execução visualmente estonteante, lembrando obras como Vincenzo e a luta misteriosa e política de Além do Mal. O dorama se destaca por seu duelo entre personagens: um moralmente ambíguo e outro percebendo-se como justo. A cinematografia espetacular e a trilha sonora impactante, com faixas como “Enemy of Truth” e “Tempest”, amplificam a intensidade da série.

O primeiro episódio pode ser um desafio inicial, demorando para entrar na ação e focando em apresentações de personagens que, por enquanto, não nos dizem muito, e suas intrincadas relações políticas. Isso estabelece “The Devil Judge” como uma série para quem gosta de enredos complexos e densos, longe do típico dorama romântico ou leve (aqui quase não tem alívio cômico ou romance). A falta de dublagem pode ser um obstáculo para alguns, mas a série recompensa quem persiste, especialmente a partir do terceiro episódio, quando o mistério se aprofunda. Não vou mentir: os primeiros episódios podem ser enfadonhos e repelentes, mas depois melhora bastante!

Um dos aspectos mais fascinantes é a exploração do passado do juiz e seu cinismo ao expor a hipocrisia da sociedade e do próprio sistema. Aos poucos, você entende que ele aprendeu a “jogar para ganhar”. Caótico, acredita que dá o troco nos corruptos com mais corrupção. A série apresenta soluções surrealistas para crimes, todas ancoradas na lei e apoiadas pelo público (exemplo: sugerir açoitamento diante de um caso que a apelação pede por compreensão por uma criação do réu que seria culpa da sociedade). Essa distopia, embora pareça exagerada, ecoa aspectos preocupantes da nossa realidade.

Tudo isso é respaldado por atuações consistentes e muito completas de ambos os protagonistas, mas com muito primor por Jisang, um dos melhores atores coreanos da atualidade.

Elenco

Ji Sung, o excelente ator de Kill Me, Heal Me, é o juiz Kim Yo Han, um tipo de “Batman” que convenientemente está sempre no lugar certo na hora certa, que faz justiça com as próprias mãos e conduz os casos de um jeito manipulador. Ele tem muitas camadas, sendo uma pessoa que busca vingança de maneira metódica e fria. Essa onipotência por vezes é um ponto fraco da série, mas, ao mesmo tempo, devido à atuação, se torna um alicerce.

Park Jin Young, (Ele é Psicométrico, Dream Knight e membro do GOT7), é o típico mocinho que faz qualquer coisa em nome da justiça mais “pura”, dentro da lei, mas também acaba caindo em dilemas morais, encarando sua própria hipocrisia.

É imperativo destacar o desempenho notável e multifacetado de Kim Min Jung (de Mr. Sunshine). Como eu queria que isso fosse um dorama de romance! A relação entre os personagens é tão intensa que me peguei repetindo algumas cenas para capturar todos os detalhes. Kim Min Jung dá vida a uma figura complexa e enigmática, cuja psicologia é explorada com nuance e profundidade. Abandonada por uma família desamorosa, sua personagem é um exemplo de sobrevivência e tentativa de autossuficiência, usando sua própria força como alicerce para sua autoestima. É fascinante ao mesmo tempo que triste vê-la na assunção do papel de cuidadora de si, estimulando-se na frente do espelho. A atriz domina a tela em cenas de grande impacto, encarnando uma ‘psicopata carismática’ que ressoa perfeitamente com seu rival, devido à sua extrema semelhança em personalidade e táticas. A complexidade de sua personagem é tão rica que mereceria uma análise detalhada à parte, tamanha a minha fascinação por sua interpretação.

Tem mais atrizes ótimas nas personagens secundárias, como a Park Gyu Young (Tudo Bem Não ser Normal e Celebrity), a Jang Young Nam (Tudo Bem Não ser Normal), a Jeon Chae Eun (A irmã mais nova de Três Irmãs) e a belíssima Kim Jaekyung (ex-Rainbow, grupo dos anos 2000).

Desenvolvimento

Certamente os três personagens mais completos são: o juiz, a diretora e a ministra. Os três possuem atores de peso que fazem excelentes trabalhos, além de mostrarem vários lados em sua construção. Todos têm suas vulnerabilidades e fraquezas, além de serem ardilosos e especialmente inteligentes (o juiz e a diretora interagindo em sua rivalidade sutil eram cenas deliciosas).

Uma das participações mais fracas é da detetive, que está sempre invadindo os espaços, interrogando com pouca inteligência e chegando a lugar algum, partindo para a ação. Serve como apoio para o “juiz bonzinho”, mas acaba sendo um estepe emocional, assim como foi na própria relação deles. Na segunda metade da série, enquanto a complexidade dos protagonistas é bem explorada, ela se torna subutilizada. Seu papel poderia ter sido aprofundado para melhor explorar suas motivações e impacto na história, além de ser uma “amiga de infância do protagonista”.

“O país no qual os pobres moram é diferente do país no qual você mora. Então pense neles também”

Mais problemas aparecem na segunda metade do dorama, que apesar de repleta de reviravoltas empolgantes, apresenta momentos onde o ritmo acelerado parece ofuscar o desenvolvimento cuidadoso da trama estabelecido nos episódios iniciais. Esta mudança de ritmo, embora possa ser vista como um esforço para manter a tensão elevada (e que poderia ser um ponto positivo, tendo em vista os dois primeiros episódios confusos), em alguns momentos pode deixar a impressão de uma conclusão apressada ou de tramas paralelas não totalmente resolvidas.

No entanto, senti que o dorama chega em um ponto de desenvolvimento muito agradável, na tentativa de desenvolver a relação dos personagens além da trama política. Fiquei surpresa, pois antes de assistir, pensava que seria um caso por episódio com pouco foco nos personagens principais, o que não ocorreu.

Conclusão

Resumindo, há duas vertentes que podem te fazer querer assistir.

Número um: a natureza distópica da série em abordar temas pesados e cenas perturbadoras com forte aprovação popular, algo que os espectadores devem estar preparados. O Juiz do Diabo é uma história de vingança com planejamento. Um mergulho no jogo político de interesses, com personagens com índole duvidosas e corrupta, vários mistérios de crimes e uma boa dose de surrealismo. Seria facilmente uma série de advogado adaptada pelos EUA, contendo um teor carregado de temas policiais e políticos. Vale a pena ver se você curte o estilo investigativo e séries sobre tribunal. Tem personagens muito interessantes, vilanescos e astutos.

E número dois, que foi o que me encantou: o trabalho impecável de atuação de atores como Ji Sung e da Kim Mi Jung, ou a excelente personagem da ministra que participa de uma cena impactante e imprevisível. Ansiava por interações entre eles. A construção e expansão de caráter do personagem de Park Jin Young também me deixou intrigada até o final: será que ele vai ceder? Até quando? Enfim, vale a pena por esse olhar de progressão também.

No entanto, entenda o que a série não é: casos episódicos de crimes, sendo focos individuais. Aqui é muito mais sobre o principal do que os casinhos, que mais apimentam do que ganham palco. Não há romance – ainda que tenham cenas excelentes de sedução – ou comédia boba. É uma história sobre crueldade humana, hipocrisia e moralidade, tudo isso regado a vingança, cinismo e muita manipulação.

Tem alguns problemas de ritmo e uma mania cênica incômoda de querer apimentar cenas de suspense com uso de armas, bombas e sequestros de um jeito quase cartunesco. Mas, se você tiver paciência, entrega alguns momentos especiais de atuações ricas.

Nota:

Avaliação: 3.5 de 5.

O que ver a seguir? Juvenile Justice tem uma juíza tão implacável quanto, mas aqui é focado nos casos individuais.

Um clima de investigação e linha moral confusa está Além do Mal.

6 comentários

  1. esperava ver uma relação BL entre o juiz e o jovem juiz, amei a química dos dois, nada vê a relação da policial, com ele, totalmente sem química.

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  2. Esse dorama é ótimo, até porque Ji Sung é lindo e perfeito…só podia ter romance e não gostei do que aconteceu com um dos personagens (sem spoiler) …mas, no geral, é top !

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      1. Mulher rs
        Era esperança de algum romance rs

        Não lembro disso do último capitulo rs

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      2. Mulher, da única chance de par romântico rs
        Homem? Não lembro q fim é esse rs

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