Resenhas de Kdrama

Resenha de Tale of the Nine Tailed: casal sem química, fillers e mexidão sobrenatural

Tale of The Nine Tailed (Conto da Nove Caudas) é um dorama sobre a história de amor uma raposa de nove caudas (gumiho) e a princesa de um reino, separados por uma tragédia. Ele continua procurando por sua reencarnação centenas de anos depois, até os dias de hoje, quando encontra uma produtora de programas sobrenaturais que perdeu os pais em um misterioso acidente de carro.

Escrito pela Han Woori, (De Children of a Lesser God), a história sobrenatural da tvN tem 16 episódios com muitos problemas de roteiro bagunçado, que não sabe a hora de inserir comédia sem quebrar completamente o senso de urgência da história, esfriando a temperatura da trama o tempo todo.

Sendo bem sincera, me senti enganada pela quantidade de marketing que teve esse drama, as músicas e, acima de tudo, os dois primeiros episódios, que foram explosivos e empolgantes. Parecia ser A história de sobrenatural do ano – em um ano sem muitas, talvez seja mesmo. A presença de Lee Dong Wook e Kim Bum prometia muito, mas a direção gastou todos os cartuchos nos dois primeiros episódios, depois logo no terceiro já começaram a empurrar todas as cenas ruins chatas cortadas da edição e ficaram na eterna promessa de uma história que jamais viria.

A direção é do Kang Shin Hyo, que dirigiu “Herdeiros” e “Children of a Lesser God” (Hmmm…). As cores em contraste do drama trazem uma beleza misteriosa para a série, que infelizmente não condizem com a experiência em tela.

A partir do quarto episódio, um verdadeiro “bibimbap”, um mexidão, de sobrenatural foi feito na tentativa de utilizar todos os elementos aclamados de outros dramas do gênero. Primeiro, ele tenta focar na investigação de “monstros folclóricos do dia”, como “O Sol do Mestre” ou “Goblin” no começo. Nos dramas que isso dá certo, existe um aprendizado para os personagens a cada caso, ou pelo menos o caso em si é envolvente e impactante, mas aqui é simplesmente jogado de qualquer jeito, mesmo quando o tema é bom. Chegou ao absurdo de quererem colocar uma história de maus tratos infantil completamente pincelada, com um desenvolvimento de menos de quinze minutos de cena e uma música triste para forçar o choro. Lamentável.

Percebe-se a tentativa de agradar vários públicos; ora abusando do “horror”, ora partindo para “espíritos”, até coloca Lee Dong Wook sem camisa em uma cena mais “quente” (me pegou aqui, confesso, mas não foi o bastante). Chega até a flertar com animes, principalmente Inu Yasha. Nenhum problema aqui em fazer homenagem a uma boa história, se fosse bem feito.

Os efeitos visuais são, em sua maior parte, vergonha alheia – cito a queda infinita do prédio, a luta com a xamã e a primeira quase-transformação. Felizmente, eles não são constantes, pois pareciam live action de anime de 1990 (que, quando é o caso, eu acho legal, mas não foi o que eu cliquei pra assistir). O que realmente me perdeu nesse sentido foi a tal da “história do inferno” e seus superlativos de sofrimento e uma justificativa que saiu do nada, cena forçadíssima. Me deu tanta vergonha assistir tal ator em cortes repetitivos de cena atravessando uma ponte que eu quase contei os minutos e a cena não acabava nunca. Só conseguia pensar no ator filmando aqui em uma tela verde.

Ainda assim, isso não é o pior do dorama. Antes fosse. Sabemos que sobrenatural nunca é fácil de fazer, mas o básico de uma boa história, mesmo quando é fraca, são os personagens. Em nome de um casal apaixonante, às vezes dá até para esquecer do resto. Mas o que temos aqui?

A protagonista, interpretadapor Jo Bo Ah (de “Floresta” e “Princesa Excedente”), é a maior sabichona sem carisma, que convenientemente sempre sabe tudo sobre sobrenatural, mais do que qualquer colega da mesma profissão ou até dos próprios seres folclóricos, além de ter uma memória invejável para detalhes que ninguém saberia (calendário lunar, alguém?). Seria lindo se ela fosse assumidamente um supergênio, mas ela serve como penico de conveniência narrativa. Temos que andar com a história, mas não tem como se ninguém descobrir esse segredo? A protagonista sabe. Temos que explicar para a audiência esse folclore aqui de maneira didática em vez mostrar em cena porque temos preguiça de criar uma cena legal que explique? Chamem a protagonista. A garota parece a Wikipedia, é muito chata.

Não me entenda mal, é muito bom ver personagens feminina sagazes, inteligentes, às vezes vilãs, mas tem tantos exemplos menos insuportáveis, mais bem construídas do que a Ji Ah, que não dá nem para comparar. O resultado disso é que é muito difícil de ter empatia pela protagonista, que é tão boa em tudo e não tem falhas, sem parecer nem humana – justo na única humana importante da história, veja bem! Além de não parecer real, a personagem não tem um pingo de carisma

Aí entra o próximo problema: não dá para sentir a química entre uma personagem múmia com um ser especial de outro mundo, simplesmente porque ela quase nunca esboça emoções, reações, envolvimento com o que é feito para ela, nem mesmo quando acontece um beijo! A única motivação dela é bem fraca, mas mesmo só repetindo que quer ver os pais o tempo todo, ela esquece completamente disso nas dezenas de cenas fillers que entremeiam a história principal e suas chances de vê-los. Suas reações são apáticas, sem graça, sem alma. Mesmo quando eles inserem uma cena por puro fanservice, a química não melhora nem um pouco, é só uma exibição bem-vinda de Lee Dong Wook.

A apatia parece um vírus contagiante em quase tudo que a toca – já já chego nas exceções. O drama usa tanto o recurso de “pegadinha” no espectador que quando uma certa cena acontece de verdade, é tão fraca e com reações nulas, que você até torce para que agora, sim, seja uma cena falsa – como uma certa aparição saída das lanternas chinesas.

Outro ponto que me incomodou demais foi que, apesar de a música algumas vezes ser muito boa, em especial as cantadas ou as instrumentais que lembram Inu Yasha com seus instrumentos tradicionais, quando entra nas de batalha também cheira a naftalina. Na verdade, ela é mal inserida. Às vezes tem uma musica de comédia estragando cenas que deveriam ser emotivas. Muitas pessoas não reparam nisso, mas música ajuda muito a criar ambiente.

Enfim, vamos ao que se salva desse dorama.

Em primeiro lugar, não culpo o Lee Dong Wook. Ele é um bom ator – há muitos trabalhos para ver do que ele é capaz (Life, Goblin e até Toque Seu Coração estão aí para isso), mas nem ele consegue fazer certas cenas parecerem convincentes. Seu olhar intenso, a erguida de sobrancelha, até o choro e a tentativa de convencer alguém que ama aquela garota são bastante válidos – e até dá para comprar o sentimento dele, só que não ressoa nela. Quando ele está sozinho, em especial interagindo com o irmão, que faz parte de outros bons personagens, a história muda e a química aparece. Se fosse uma história focada nos irmãos, teria sido um drama muito emocionante. Eu quase não teria do que reclamar.

O irmão, Lee Rang, é interpretado pelo Kim Bum (de “Meninos Antes de Flores” e “Ventos de Inverno”). Ele é ótimo, um anti-herói bem cretino, com um amor pelos animais e um coração ciumento magoado. Entrega camadas de protagonista e muito material para explorar. Além dele, a Ki Yoori, interpretada pela Kim Yong Ji (de O Rei Eterno), esbanja carisma com uma personagem aprendendo sobre sua humanidade. O personagem veterinário (Sin Joo), que acaba se envolvendo com o trio, também é digno de muitos dos bons momentos da série. Juntos, parecem raposas mesmo e fazem coisas mais interessantes e emocionantes que o casal principal.

Eles são é tão bons que antes mesmo de a séria acabar, foi anunciado um spin off depois do drama – sim, os secundários vão ter uma história paralela.

O restante do elenco é inexpressivo e irrelevante. A única aparição extra interessante é a do espírito dos pesadelos, que fez um bom trabalho de criar um clima sinistro e preocupante.

Os fillers e a falta de senso de urgência

Fazer sobrenatural não é fácil. O mundo paralelo, as raças diferentes, as regras desse mundo… O espectador tem que aprender tudo isso e ainda entender por que deveria se importar com tudo. Tem muita coisa que você precisa perdoar para curtir uma historinha assim. Só que é muito mais difícil de embarcar na história e levá-la a sério quando…

Tem a droga de um demônio solto capaz de matar pessoas sem encostar nelas e os personagens, perfeitamente cientes disso, estão mais preocupados em sair para jantar; quando uma dupla de personagens humanos e vulneráveis acabou de sair de um pesadelo eterno de anos e age como se tivesse ido comprar pão e voltado, com a maior calma do universo; quando a protagonista tem um único objetivo na história inteira, mas ao finalmente ganhar uma chance, esquece isso para tomar sorvete com o protagonista.

Entre outros exemplos esdrúxulos, em nome de cenas filler de um romance pouco convincente. Os personagens vagam sem propósito por episódios apenas curtindo momentos juntos, fazendo com que o clima da série não esquente nem por um episódio inteiro.

Resumo:

Tale of the Nine Tail poderia ser inesquecível, se tivesse escolhido apenas contar a história de dois irmãos com uma rivalidade além do tempo. É uma clara tentativa de criar um sucesso como Goblin, e, para tal, mistura elementos de dramas ótimos (Master’s Sun, Hotel del Luna, Goblin e até Mystic Pop up Bar) e filmes americanos/que falam inglês teen famosos (Harry Potter, Vampire Diaries, Crepúsculo). Esforça-se tanto para ser relevante que apela até para uma cena sensual, que é de corar as bochechas, mas é antecedida por um teatrinho tão banal que a cena cortada no Youtube é mais prazerosa do que o episódio no qual ela é inserida. O final chega em baixa expectativa, com acordos, clima gelado, avisos demais sobre o que aconteceria e nenhuma torcida para que o casal fique junto. Havia somente o medo de que personagens secundários morressem – afinal, eles eram os mais queridos.

Sem nunca definir o que gostaria de ser, acaba tentando abraçar um pouco de tudo, mas acaba não tornando-se bom o suficiente em nada. Falta alma e personalidade. A história não é envolvente, as motivações não são claras e a escrita obriga os personagens a patinarem no raso. Tem dificuldade em construir um senso de importância até o clímax final, e, seguindo o sensacionalismo do resto, resolve as tramas, mas deixa uma abertura para especulação de segunda temporada.

Na balança, acaba de maneira menos equilibrada, sem cativar, com pouquíssimos episódios satisfatórios – metade, ou menos. Excluindo os dois primeiros, que não refletem em nada em como a série é de verdade, o nível cai bastante, ficando um pouco melhor da metade (9) para o final, quando começa a ficar mais sombrio, – mas aí já é tarde para se importar.

Com episódios arrastados, até há alguns bons momentos soltos de cenas que ficaram perdidas nas mais de 16 horas de suplício, porém não recomendo a menos que você não tenha realmente mais nada para assistir e seja muito fã do Lee Dong Wook ou do Kim Bum.

Tinha potencial para uma historia sensacional, aparente química entre os atores (no pôster, o casal principal parece de arrepiar), mas tem vários problemas de execução dispersa e anticlimática. O final não é ruim – o que não quer dizer que eu goste do destino de todos os personagens. As escolhas são coerentes e até traz alguns “mimos” para quem aguentou até aqui. Porém o dorama em si não tem nada de especial que não seja completamente esquecível em alguns meses ou facilmente substituível por um sucessor.

Dramas semelhantes

Se você está atrás simplesmente de um dorama romântico e fofo com o Lee Dong Wook, veja Toque Seu Coraçao, que tem uma história fraquinha, mas consegue ser muito fofa. Sua parceira romântica é a Yoo In Na, a Sunny do Goblin. Vale a pena.

Se procura um sobrenatural com um casal de verdade, veja Goblin – hoje já podemos dizer que é um grande clássico -, Hotel del Luna – belíssimo dorama com espíritos com casal além do tempo -, ou o mais antiguinho ainda Meu Amor das Estrelas – ser de outro mundo blasé e humana de personalidade forte se apaixonam. Outras opções: Mystic Pop Up Bar e A Lenda do Mar Azul.

Nota:

Avaliação: 3.5 de 5.

16 comentários

  1. Entendo que cada um tenha uma opinião, mas o jeito que você falou faz parecer que o drama foi o pior já produzido na história. Mas, tem sim uma história incrível, achei que o casal tinha química e não vi problema nenhum em relação a enredo, OST, entre outros “problemas” que você disse que a história tem. Enfim, gosto é gosto, e cada um tem o seu.

    Ah, e só mais uma coisinha: eu vi que você citou produções americanas, como Harry Potter. Acontece que, Harry Potter é um filme europeu, feito na Inglaterra, e não na América😉

    Curtir

Deixe uma resposta para Lia Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: