[Resenha] Dear My Friends: dorama com personagens velhos traz lições de vida para todos

Dear My Friends é uma série da tvN de 2016, contendo 16 episódios sobre um grupo de idosos amigos que lidam com as perguntas nunca respondidas da vida, suas relações, alegrias, arrependimentos e sonhos. O dorama coreano fala também da relações entre pais e filhos, além de humanizar e valorizar um grupo de amigas muito carismáticas e com mais personalidade do que uma década inteira de protagonistas sonsos de doramas. Por enquanto é um dos doramas que está no Netflix – e um dos melhores.

Engana-se quem olha o elenco composto por idosos de que será uma historinha fofa com uma avozinha boazinha costurando em uma cadeira ou um dramalhão em ampulheta contando os dias deles. Dear My Friends retrata a vida sem romantizar: as personagens tiveram uma vida muitas vezes difícil, sem propósito, cometeram muitos erros, seus sonhos postergados não se realizaram, algumas nem ao menos são importantes nos dias de hoje para sua própria família e elas são vistas de forma homogênea como “velhos”. Nem por isso se portam como velhinhos coitados inofensivos. O grupo tem personalidades distintas: a rabugenta, a meiga, a popular, a namoradeira, o oppa galã, o oppa tóxico… Com certeza algum deles trará identificação e será seu favorito. Mas todos acabam crescendo no coração.

Além das complexas personalidades, trata fortemente de amizade duradoura e temas importantíssimos de uma forma brutalmente realista, como o abandono de idosos, violência doméstica, machismo enraizado, doenças e morte. Apesar disso, não é sensacionalista, nem precisa dramatizar em cima disso: é a vida, acontece assim mesmo.

Há também toda uma parte reflexiva existencialista que você pode explorar com sua própria criatividade para sua vida. Os temas têm pequenos núcleos, com começo meio e fim sem deixar tudo embolado e confuso. O episódio mais forte para mim foi o 6. Foi uma bomba na cara pois lidou com uma questão de libertação de uma vida de dores e também um pai muito protetor (mas machista ao extremo) e orgulhoso demais mesmo não tendo nenhum poder confrontando algo muito maior que ele sem obter nenhuma recompensa por isso. Como disse, cada um vai achar uma história que conversa melhor com você.

Nem tudo são flores, e o elenco jovem é o mais fraco do dorama

O único ponto negativo em geral, para mim, foi a historinha morna da Wan (a escritora de 40 anos interpretada pela Go Hyun Jung, que foi Miss Coreia em 1989 e atuou em Hourglass e Rainha Seondeok) e seu namorado virtual da Eslovênia (interpretado pelo Zo In Sung, ótimo protagonista de It’s Okay That’s Love e That Winter, The Wind Blows). A atuação é convincente, mas os personagens são fracos e o casal se torna sonso, com motivações estranhas – não consegui entender o dilema deles, então não senti o drama e a dificuldade do casal. Achei bem dispensável esse relacionamento e se o drama fosse só sobre eles, eu teria despencado a nota disso.

Para quem eu não recomendo: o ritmo é lento, bastante “fatia da vida”, então fuja se quer algo mais dinâmico. Se não quer aproveitar para pensar, ou não estiver com o psicológico preparado para o inevitável, fuja. Não vai acontecer nada, nenhum poder especial, nenhum serial killer, nenhum romance água com açúcar. Pode esquecer. Vá assistir Stranger, K2

A parte técnica

A autora é No Hee Kyung, do ótimo drama It’s Okay, This is Love, uma espécie de irmão mais velho do Tudo Bem Não Ser Normal – estiveram nesse drama os atores Zo In-Sung (o namorado virtual), Lee Kwang-Soo (o filho da Huija) e Sung Dong-Il (o artista). Além disso ela também escreveu That Winter, The Wind Blows, que também entrou para o catálogo do Netflix, e Live. O diretor Hong Jong-Chan fez “Her Private Life” e “Live Up to Your Name”. As cores dão o tom suave da história e as músicas não são memoráveis por uma vida, mas trazem bem a emoção necessária, no estilo “folk” com “lalala” e assovios de outros dramas sobre amizade.

Os personagens

Agora vamos apresentar o perfil dos personagens. Garanto que pelo menos a história ou personalidade de UM desses “velhinhos” vai falar diretamente com você ou sobre alguém que você conhece.

Park Wan é a única jovem protagonista da trama. Ela é filha de Nan-hui e seu papel na trama é ser a escritora que vai transformar a história das amigas de sua mãe em livro. É impulsiva e completamente inconsequente. Achei bem irritante – mesmo reconhecendo que ela tem um papel importante a cumprir na história e mesmo para ser uma ponte para atrair audiência de idades distintas.

Jang Nan-hui (Go Du Shim, que esteve em Para Sempre Camélia e My Mister) é a mãe de Wan. Dona de um restaurante, é completamente paranoica em relação a amantes. Tem uma mente conservadora e é obcecada pela filha, intrometendo-se em todos os aspectos.

Oh Ssang-Boon (Kim Young-Ok, a senhora Noh do O Rei Eterno) é a mãe de Nan-hui. É uma mulher que apanhava muito de seu marido, mas, na velhice, precisa cuidar dele e de seu filho com deficiência. Ela tenta se vingar dos anos de maus tratos, mas vive às custas da filha.

Lee Young Won (Park Won Suk, de “The Last Empress”, “Coffee Prince” e “Miracle”) é uma atriz famosa muito popular. Solteira, ainda tem saudade de seu primeiro marido. É uma mulher que leva a vida com muita leveza e maturidade, mas aguenta grandes provações.

Oh Choong-Nam (Young Yuh Jung, de Mulher de Fogo, A Housemaid, O Gosto de Dinheiro e The Bacchus Lady) é uma mulher rabugenta que “odeia velhos”, portanto gosta de fazer amizades com pessoas mais jovens, que acabam aproveitando-se de seu dinheiro e boa vontade.

Jo Huija (Kim Hyeja, conhecida como “a sogra” em vários dramas, e premiada pelo filme “Mother”, de 2009) é uma das minhas favoritas. É muito religiosa e sozinha, que tem medo de ser um fardo para os filhos, que seguiram suas vidas e não parecem se importar muito com ela. É muito meiga, delicada, mas bastante teimosa e está começando a enfrentar pequenos sinais de demência.

Fechando o grupo de amigas, temos Moon Jung-A (Na Moon Hee, a senhorinha que vendia remédios do “Apenas Entre Apaixonados“), uma dona de casa que trocou todos os seus sonhos para cuidar do marido – que é um machista turrão e orgulhoso – e sua família.

Além delas, tem o marido machista da JungA (Shin Goo, que esteve em My Mister, como o presidente Jang) e o advogado mulherengo (Joo Hyun, o dono do hospital em Dr. Romantic). Todos são desenvolvidos e têm pelo menos um pedaço de suas histórias exploradas em algum momento.

Por que ver um drama sem casaizinhos e oppas?

Dear My Friends é mesmo uma obra-prima de sensibilidade, pois não tenta ser nada que a vida não seja. Mesmo trazendo realismo e lágrimas, é leve, engraçada e reflexiva. Seus personagens são como provavelmente são ou foram seus vizinhos, tios, pais, avós… É uma maneira interessante de poder enxergar seus próprios conhecidos e também a si mesmo, até na tentativa de prevenir certas atitudes. Os episódios, se bem refletidos, causam provocações internas fortes, porque tem sempre aquele parente seu insuportável que você tem vontade de sacudir, mas a série o humaniza também – com exceção do marido de uma das filhas não existe um vilão.

É uma história sobre viver sem pensar que os dias estão contados, em qualquer idade ou condição que seja – uma reflexão especialmente interessante em tempos de pandemia. É um olhar sobre problemas enraizados na sociedade e uma pequena hipótese de onde vieram, podendo tornar-se um estudo pessoal para desvendar comportamentos seus e de seus entes queridos.

Diferentemente dos estereótipos de adultos, especialmente os idosos, bem resolvidos, amargos por nenhum motivo ou simplesmente carinhosos e fofos de graça, aqui temos personagens que ainda têm muito a aprender, mas não necessariamente estão dispostos a tal. O dorama propõe que a velhice não traz uma sabedoria mágica sem um esforço desde a juventude para aprender e evoluir. São pessoas que partiram do mesmo princípio e acabaram, em suas escolhas, chegando naquele ponto. Muitos continuam apenas tentando, outros se acham no direito de nem tentar – e explica o motivo pelo qual pensam dessa maneira e estão fartas de certas situações, mas passam a agir com mais confiança em alguns aspectos que tinham dificuldade enquanto jovem, mas tornam-se tímidas em relação a outras trivialidades da juventude.

Como era de se esperar, a série traz muitas reflexões sobre perdão, desistindo de mágoas dolorosas em detrimento do tempo restante com aquela pessoa. Traz a dolorosa e difícil compreensão de que algumas pessoas simplesmente podem não mudar até o final de suas vidas por simples orgulho, mas você tem a escolha de perdoá-las mesmo que elas neguem completamente o que te fizeram e achem que suas memórias são uma mentira. Aquela mãe machista que te chamou de vagabunda no passado talvez nunca reconheça o que fez, nem mude suas atitudes – e a única forma possível de manter os laços sem continuar se machucando e ferindo sua saúde mental talvez seja jamais endereçar o assunto e esforçar-se, sozinho, para perdoar o imperdoável, pois nem todo mundo consegue enxergar os próprios erros e pedir desculpas honestamente como numa trama ideal de livro ou dorama, mesmo quando a questão foi escancarada. Às vezes, o melhor a se fazer é olhar para frente. Fica a reflexão da história.

Essas imperfeição é uma das belezas da série, que não pretende “consertar” ninguém, mas traz algumas oportunidades de evolução. A história faz questão de abordar o passado de todos os personagens e as consequências de seus atos no futuro. As relações humanas complicadas entre filhos e pais são retratadas frequentemente e de maneira bastante honesta e nada incondicional: afinal, é impossível que pais e filhos se amem o tempo todo, quando ambos fazem tanto para machucar o outro e irritar. Isso não quer dizer que deixem de amar.

Dear My Friends desromantiza a família e mostra a realidade de muitos idosos, sem tentar levantar uma bandeira educativa, apenas em tom de relato – bastante suave, por sinal.

Enfim, tenho certeza de que a série irá tocá-lo em algum lugar, se você estiver a fim de reflexões sobre a vida e sobre parentes. Sei que a série mexeu comigo e me faz ter vontade de me esforçar para ter menos arrependimentos – mas aceitar que, talvez, eles sejam mesmo involuntários e que certas questões moldadas em 50 anos simplesmente não podem mudar de repente em 30.

É uma obra singular muito recomendada se você tem um coração sensível e quer ver algo bem diferente das comédias românticas padrão.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

O que ver a seguir?

Sem dúvidas, Itaewon Class é uma versão bastante jovial dos personagens imperfeitos e carismáticos, em um contexto bem rebelde.

It’s Okay That’s Love é da mesma roteirista e retrata doenças mentais com a mesma sensibilidade. Recomendo bastante. Andando de mãos dadas com esse drama, o mais recente Tudo Bem Não Ser Normal também tem personagens muito imperfeitos, num contexto bem mais “romantizado”, no sentido de ter uma narrativa de conto de fadas.

Uma versão jovem de Dear My Friends seria o “Hello My Twenties“, sobre um grupo de cinco universitárias que moram em uma república.

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