Switched: dorama do Netflix sobre padrão de beleza, bullying e aceitação

Switched (2018) é um dorama curto da Netflix (só 6 episódios de 40 minutos) sobre duas garotas que trocam de corpo: a excluída “feia” da turma e a popular “linda”. A história é uma adaptação do mangá shoujo “Sora wo Kakeru Yodaka” (“Corra no Céu”, em tradução livre, ou “Rouge Eclipse”, como foi adaptado) (2012), do Kawabata Shiki.

Antes de mais nada, a trama vai na contramão de tantas transformações mágicas de alguns doramas que fazem de suas personagens deusas da beleza simplesmente por emagrecê-las, mudar seus cabelos e pele.

Não parece no começo, mas Switched trabalha para fazer o inverso: o interior dos personagens é a verdadeira discussão. Quando Ayumi Kohinata (Kaya Kiyohara – “Death Cash”, “Toumei na Yurikago” e “Hotarugusa”) se torna Zenko Umine, ela é tratada de forma péssima a princípio, mas com a ajuda de um amigo (que só a trata bem porque sabe quem é ela de verdade, vale ressaltar…), ela começa a conquistar algumas pessoas por seu jeito que ainda é meigo e carinhoso. Por outro lado, Zenko Umine (Miu Tomita – em seu primeiro papel principal em doramas) no belo corpo de Ayumi começa a perder amigos por causa de sua personalidade obsessiva e agressiva, mas, felizmente, a vítima não é demonizada.

O que gostei bastante é que a série faz questão de mostrar que os traços de egoísmo e inveja de Umine foram adquiridos, aprendidos em autodefesa por causa da forma que ela é tratada tanto em casa quanto na escola. Enquanto Ayumi tinha uma vida perfeita, tanto dentro quanto fora de casa, mas, segundo a própria, “nunca tinha percebido isso”. É fácil ser gentil e amoroso quando as pessoas lhe tratam bem. É fácil ser fofo e legal com todos quando todo mundo lhe dá oportunidade. Difícil é ser agredido de graça todos os dias por causa de algo que vai contra a sua escolha. Ser odiado por como você se parece deixa cicatrizes que impossibilitam qualquer um de construir autoestima.

É fácil culpar a garota que sofre bullying e não é bacana com todo mundo pela forma grotesca que você a trata – ou deixa de defender. E é fácil falar palavras bonitas sobre “você que exala a sua beleza interior” quando não é você que sofre por causa disso.

A história me trouxe muitas emoções mistas. Quando comecei a assistir, tive vários preconceitos com a série e inicialmente previ que ela tomaria o caminho de uma garota no padrão arrogante aprendendo na pele como é ser considerada feia – uma história de vingança -, mas o que a série faz é desconstruir tudo isso. A garota bonita não é má, a garota feia também não é uma grande heroína – e gosta de oprimir quando ganha o sabor da troca de lugar. Ambas têm o que aprender uma com a outra e tornam-se bonitas e feias ao mesmo tempo para a audiência e os personagens em volta só por causa de suas atitudes, sem mudar as atrizes.

Mesmo assim, sem cair no discurso de que Umine é grosseira e reativa porque quer, já que é “só ser legal e você terá amigos”, Switched acerta ao abordar que Umine não teve essa chance e só foi reativa e agressiva com quem tentou se aproximar por já ter sofrido demais, mas ao jogar tudo para o alto, anulou suas chances de ser querida. A falta de amor por sua aparência física a torna amarga, e a amargura também lhe afasta mais do amor. E a ironia que a deixa ainda mais frustrada é o fato de que foi necessário outra pessoa em seu corpo para que ela fosse amada, e que o amor das pessoas pela garota que tem tudo (dinheiro, boa família, aparência padrão) é tão forte que conseguiu ultrapassar algo que ela foi ensinada a vida toda que era o motivo principal para ser odiada – sua casca.

E tem gente que é assim de verdade…

Dentro disso, a atuação me surpreendeu muito, especialmente das duas meninas principais – (Miu Tomita e Kaya Kiyohara). É perfeitamente crível a troca de corpo delas. Com o tempo, a transformação do olhar, da postura e até do tom de voz dos personagens fica muito adequado às trocas. É realmente prazeroso, e poderia ter sido a morte da série se fosse mal feito.

Os casais: Koshiro (Tomohiro Kamiyama) e Kaga (Daiki Shigeoka) vivem um triângulo amoroso com Ayumi. Kaga é o amigo engraçado secretamente apaixonado por ela, e o primeiro a acreditar em sua troca. Já Koshiro é o popular amigo de infância considerado lindo, que, por sua vez, secretamente também tem inveja de seu melhor amigo, Kaga. Quando trocam de corpo, ele age como se não se importasse, porque as pessoas continuam gostando do casal. O personagem dele para mim foi o que eu mais olhei torto perto do final da história.

Um destaque de elenco também vai para a Seki Megumi, que faz “a pesquisadora”. Ela é uma atriz que eu já vi em dois doramas muito queridos: Sunao Ni Narenakute (2010) e Life (2007).

Switched é um exercício de empatia e como as pessoas podem se tornar se dadas uma oportunidade. É uma grata surpresa para um assunto sensível e cheio de gatilhos. Sua estrutura é ultrafantasiosa, mas para passar mensagens importantes. Se você procura um drama que, finalmente, aborda a questão da beleza e escancara a hipocrisia e a solidão dos padrões, esta é uma boa opção para você.

Não veja a série se você odeia qualquer elemento sobrenatural estranho (a troca de corpo exige um suicídio durante uma lua vermelha), você pode achar sem pé nem cabeça, mas se enxergar tudo como uma mensagem, pode até acabar gostando.

Por último, a trilha sonora, criada por Ken Arai (compositor da trilha do anime “Parasyte”), é bem agradável e traz um sentimento noturno de lua e magia, bem anime.

Curiosidade

Além da história tendo como centro a lua vermelha, os kanjis que escrevem os nomes dos personagens representam quatro planetas. Kohinata Ayumi (Sol), Mizumoto Koushiro (Mercúrio, pelo kanji de água), Kaga Shunpei (Marte, pelo kanji de fogo) e Umine Zenko (Netuno, pelo kanji de mar). Se analisarmos os planetas e seus significados, também obtemos a personalidade brilhante e atrativa de Ayumi, a capacidade de adaptar-se à situação de Koushiro – Mercúrio é o planeta mais próximo do sol – , a forma explosiva de Kaga, e Umine representada, na astrologia, por vícios e ilusões, ou a figura dos mares – um simbolismo também para inconsciente e depressão -, além de ser um dos mais distantes do Sol. Será que tudo isso foi pensado pelo autor ou é uma feliz coincidência?

O que ver a seguir?

Para uma troca de corpos pura e simplesmente, Abismo Mágico também está no Netflix. Sinceramente, não gostei da forma como eles abordam a questão da “beleza interior”, mas leia minhas primeiras impressões e tire suas conclusões. Também temos o clássico dos clássicos, Secret Garden, da autora de Herdeiros.

Se quiser um bom dorama sobre bullying, eu recomendo muito o dorama japonês Life. É também uma adaptação de mangá e mostra muito bem como é a vida e a tentativa de reação de uma pessoa que sofre perseguições na escola.

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